Cortes Curtos – 2017 (Resenha)

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É comum o músico usar a dor e o amor como inspiração para compor. Mas que tal usar o caos como ponto de partida, organizá-lo na cabeça, e desorganizá-lo nas músicas? De forma brilhante, é isso que o Kiko Dinucci fez no seu primeiro trabalho solo, Cortes Curtos.

O guitarrista é conhecido por seu trabalho com a banda Metá Metá e por colaborar no disco A Mulher Do Fim Do Mundo, de Elza Soares. Mas não espere a sonoridade mais voltada pro samba dos trabalhos citados. Cortes curtos é mais rock, mais sujo, caótico. São 15 músicas-crônicas que mostram as nuances e insanidades da cidade de São Paulo sob o olhar certeiro do compositor. E as instruções para viver essa aventura sonora na selva de pedra são bem claras: “Ele é mais filme do que disco, ouça numa tacada só, ouça em volume alto se for possível”.

Dessa forma, somos jogados em “No Escuro”, lotado de camadas de guitarras e backing vocals que lembram o grande (e tão criativo quanto Kiko) Arrigo Barnabé. Aliás, o disco tem bastante influência de outros nomes da Vanguarda Paulista, como Itamar Assumpção, Grupo Ramo e Ná Ozzetti, que inclusive faz participação na música “Inferno Particular”. Outras cantoras, como Tulipa Ruiz, Suzana Salles (também reconhecida como parte da Vanguarda Paulista) e Juçara Marçal também tecem suas vozes doces com o som desafinado que sai da garganta de Kiko. Assim, cria-se um estranhamento entre as vozes que, bizarramente, é agradável aos ouvidos.

Dinucci consegue transformar o caos de São Paulo em algo agradável, como na faixa “Uma Hora da Manhã”. Nela, temos uma briga de uma homofóbica com um xenófobo dentro de um hipermercado durante a madrugada. E graças ao trabalho de guitarras frenéticas com percussão e saxofone intensos, temos uma outra tensão que nos tira daquela cena e extraordinariamente nos sentimos confortáveis com os dois tipos de caos.

Gravado em apenas 5 dias, Cortes Curtos é uma ode reversa em homenagem à São Paulo. A simetria das letras, das melodias e das sensações está construída a partir do caos, do pandemônio que só aselva de pedra poderia trazer. E, agradavelmente, nos sentimos aconchegados dentro dos 39 minutos de puro experimentalismo e confusão que ganha ordem, organização e novamente desordem, nas mãos do talentosíssimo Kiko Dinucci.

Você pode baixar gratuitamente esse disco (e outros trabalhos) no site do músico.

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9.3 Ótimo

Um disco fantástico que retrata o caos de São Paulo de maneira única e tem de tudo para influenciar muitos discos do futuro.

  • Originalidade 9.5
  • Letras 8.5
  • Instrumental 10
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Sobre o Autor

Bruno Ascari

Colecionador vinil e músico frustrado, vive procurando novos álbuns para ouvir. Escreve sobre música e tem toque por praticamente só ouvir discos inteiros.