Fuga de Nova York – 1981 (Resenha)

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Com o sucesso comercial de todos os seus filmes anteriores, John Carpenter conseguiu seu maior orçamento até então (US$ 6 milhões) para criar uma visão distópica do futuro em seu primeiro filme de ação. Fuga de Nova York se passa no ano de 1997 (o filme foi lançado em 1981) em uma realidade onde a violência atingiu níveis alarmantes nos EUA e a ilha de Manhattan foi cercada de modo a se torna uma gigante prisão para todos os tipos de criminosos e degenerados. Quando o avião do presidente dos EUA (Donald Pleasence) é raptado e cai na ilha, os agentes militares responsáveis pela defesa nacional precisam recrutar o infame criminoso Snake Plissken (Kurt Russel) para capturá-lo vivo, antes que os detentos iniciem uma rebelião liderada por Duke (Isaac Hayes).

Assim como George Miller havia feito em Mad Max em 1979, Carpenter e seu parceiro roteirista Nick Castle (responsável pelos cults O Último Guerreiro das Estrelas e O Garoto que Podia Voar) criam um ambiente futurístico de desolação e conflitos entre gangues violentas, estilizado por um clima punk e new wave. Inclusive, o próprio fundador do cyberpunk, William Gibson, já revelou ter se inspirado nesse longa.

O design de produção de Joe Alves explora os ambientes externos ao demonstrar a degradação das edificações e ruas de Nova York, tomadas pela sujeira, pichação, depredações, falta de iluminação e carcaças de carros. Já os ambientes internos são hábeis ao demonstrar as características de seus habitantes de uma forma artesanal, como os aposentos de Brain (Harry Dean Stanton) serem na antiga biblioteca municipal da cidade, ou o opulento ringue improvisado criado pelos discípulos de Duke.

Da mesma forma, a fotografia do parceiro habitual de Carpenter, Dean Cundey, consegue transparecer os contrastes daquele universo: enquanto a noite na ilha de Manhattan é fria e obscura (com tons azul e verde), os interiores são banhados por uma amarelo e vermelho saturados oriundos de chamas de fogueiras ou dos espaços sujos e poeirentos, simbolizando uma violência velada e sufocante.

Explorando os aspectos técnicos a seu dispor, o diretor consegue explorar sua câmera de forma a driblar alguns recursos limitados e entregar imagens elegantes. As panorâmicas da ilha de Manhattan banhada pelo luar são realmente impactantes, bem como a forma com que Carpenter explora ao máximo planos com extensos campos para mostrar os detalhes dos ambientes e ajudar o espectador a penetrar naquele universo (a escala da destruição das ruas de Manhattan é impressionante). Também elegante é forma como Carpenter manipula seus longos, e suaves, planos na introdução do filme para explorar todo o quartel militar responsável pela proteção do muro de Manhattan.

Carpenter, na verdade, constrói o filme mais como um suspense de perseguição com tons de western que um filme de ação incessante, embora os momentos de ação também sejam divertidos. Em determinados momentos ele cria até cenas de terror (como o uso de sombras, silhuetas e névoa ao nos apresentar aos moradores subterrâneos). E apesar de ele explorar o conceito de contagem regressiva para as ações de Plissken a fim de criar a sensação de urgência necessária ao filme (um recurso batido), ao menos o diretor é inteligente ao fundir a trilha sonora e os sons diegéticos de forma cada vez mais intensa à medida que o tempo chega ao fim; assim como ao explorar uma montagem mais dinâmica.

Talvez o fator pelo que o filme mais seja lembrado é seu protagonista, Snake Plissken. Símbolo máximo da fixação de Carpenter por personagens “sujos” e de índole duvidosas que devem se tornar heróis em situações extremas, Snake se tornou um dos anti-heróis mais cultuados do cinema, ao lado de outros heróis de longas B dos anos 80 como John Matrix de Comando para Matar e Cobra de Stallone Cobra. O roteiro, sabiamente, não desvenda o passado do personagem, jogando em alguns momentos, pequenas informações acerca de suas histórias (o passado como militar, o evento em Kansas, ou até o fato de todos acharem que ele estava morto – uma piada divertida do filme). Desta forma, Carpenter e Castle criam uma “aura” enigmática em relação ao passado do protagonista sujeita a várias interpretações. Cristopher Nolan fez algo parecido com Coringa de Heath Legder em O Cavaleiro das Trevas.

Caracterizado de forma icônica, Snake não teria ficado eternizado se não fosse a interpretação inteligente de Kurt Russel; curiosamente os produtores consideraram Clint Eastwood, Charles Bronson, Jeff Bridges, Nick Nolte e Tommy Lee Jones para o papel. Em sua segunda colaboração com Carpenter (a anterior havia sido do filme para TV Elvis), Russel relata ter criado a persona de Snake Plissken baseando-se em Bruce Lee, Clint Eastwood, Robert Ginty (em O Exterminador) e Darth Vader (!). Além de uma fisicalidade imponente, Russel contrasta a força bruta e natureza violenta de Plissken com seu falar discreto (por vezes inaudível) e movimentos suaves. O ator permanece sempre com uma expressão de impessoalidade e frieza em relação aos demais, o que torna as tiradas do personagem ainda mais engraçadas em momentos pontuais (“Call me Snake”).

Além de Russel, o filme ainda conta com um excelente elenco de apoio. Lee Van Cleef (o “feio” de Três Homens em Conflito) encarna o “chefe” de Snake com um tom de arrogância e cinismo perfeito para o papel. Já Donald Pleasence (o Dr. Loomis de Halloween) é sábio ao utilizar a seriedade para ridicularizar o papel do presidente, até o momento de catarse ao final em que revela sua verdadeira face. Já Harry Dean Stanton (que esteve em vários clássicos como Alien – O Oitavo Passageiro) e Ernest Borgnine (outro veterano, em Os Doze Condenados) se divertem com as personas não confiáveis de seus personagens.

Mais uma vez Carpenter criou uma trilha sonora antológica para um longa, compondo um tema baseado em teclados e sintetizadores que combina com potencial empolgante da trama. Esta foi a primeira vez que Carpenter realizou uma parceria com o compositor Alan Howarth. Parceria que se repetiria por várias outras vezes.

O filme foi um grande sucesso de público e crítica, tendo arrecadado em torno de US$ 25 milhões somente nos EUA. Concorreu a quatro prêmios no Saturn Awards de 1982, incluindo Melhor Filme de Ficção Científica e Melhor Diretor. O filme possui uma continuação criada também por Carpenter lançada em 1996, Fuga de Los Angeles, porém não obteve o mesmo sucesso.

O filme é bastante cultuado por vários diretores famosos, como J.J. Abrams. Neil Marshall fez uma homenagem particular ao filme em Juízo Final (embora seja uma colagem de vários outros filmes, como Mad Max 2 e Aliens – O Resgate); bem como Robert Rodriguez se baseou no filme para criar as cenas de ação de Planeta Terror. Já Quentin Tarantino criou a caracterização do Stuntman Mike de À Prova de Morte (interpretado pelo próprio Kurt Russel), como forma de homenagem a Snake Plissken.

Com um final irônico e subversivo que torna seu protagonista ainda mais interessante e que nos faz querer assistir mais, Fuga de Nova York é uma ficção científica de ação original e divertida em sua proposta. Mais uma prova de que John Carpenter é um dos nomes mais respeitáveis e influentes do cinema fantástico.

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7.8 Bom

Construído a partir de uma das ideias mais originais e divertidas do cinema fantástico dos anos 80, Fuga de Nova York permanece imortalizado até hoje; trazendo na bagagem um anti-herói icônico de filmes de ação encarnado com talento por Kurt Russel.

  • IMDb 7.2
  • Roteiro 7.5
  • Elenco 8
  • Fotografia 8.5
  • Trilha Sonora 8
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Sobre o Autor

Guilherme Dias Araujo

Mineiro, nerd e amante de cinema desde a infância. Apesar de ter maior predileção pelo gênero fantástico, principalmente o terror, é fascinado por qualquer tipo de obra da sétima arte, de Plano 9 do Espaço Sideral até 2001 - Uma Odisseia no Espaço . Hitchcock/Truffaut é seu livro de cabeceira.