Gritos e Sussurros – 1972 (Resenha)

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A carreira de Ingmar Bergman é uma das mais interessantes da história do cinema europeu e mundial. Desde pequeno, o sueco demonstrou interesse e paixão por duas formas de arte: o teatro e o cinema. Seu bom início no teatro, tanto como diretor quanto como roteirista, o qualificou para entrar no mundo da sétima arte. Ele trabalhou ativamente ao longo das décadas de 50, 60 e 70, principalmente, acumulando diversas obras-primas em seu currículo, como O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, Quando Duas Mulheres Pecam, Fanny & Alexander, entre outros. Dentro de uma carreira tão notável está o filme Gritos e Sussurros (Viskningar och rop, 1972), o qual Bergman escreveu e dirigiu, como na maioria de seus trabalhos.

– Uma análise estética do filme Persona, de Ingmar Bergman

A história do filme se passa na Suécia do começo do século XX, em uma bela e espaçosa casa de campo. Dentro da casa vivem quatro mulheres. Agnes (Hariet Andersson) está gravemente doente, e precisa de cuidado constante da empregada Anna (Kari Sylwan). Para ajudar a funcionária, as duas irmãs da enferma, Maria (Liv Ullmann) e Karin (Ingrid Thulin) também estão vivendo lá, mesmo que temporariamente. Esse é o mundo de Gritos e Sussurros, e é nele que Bergman fará um monumental estudo de personagens, analisando o impacto de emoções como dor, ódio, amor, culpa, e tantas outras, na alma humana.

A casa de campo, que é apresentada como sendo tão espaçosa, acaba virando um claustrofóbico palco para que os traumas e segredos dessas quatro mulheres sejam revelados gradativamente para o espectador. A doença de Agnes serve de catalisadora para a desconstrução da imagem que as personagens passam de início, e é o que move o roteiro em direção à exposição dos fantasmas do passado das irmãs. O diretor estabelece uma estrutura de cenas que conecta passado e futuro de forma simples e eficiente. Antes de uma lembrança de alguma personagem, vemos, em primeiríssimo plano, o rosto dela, com expressão misteriosa, mas sempre triste e angustiada. Com um fade em vermelho, são introduzidos os flashbacks.

O primeiro é o de Agnes, que relembra como se sentia alheia a sua mãe, que sempre parecia priorizar Maria (Ullmann interpreta a mãe também, em uma jogada sutil de Bergman). Nas cenas em que Agnes sofre uma crise, a interpretação de Hariet Andersson é tão forte que torna difícil para quem assiste manter os olhos na tela. Depois de um desses casos, o médico dela é chamado, e então vemos o flashback de Maria, na mesma estrutura de cenas anterior. Em um dia que seu marido não está em casa, ela tenta seduzir o médico, que demonstra certa repulsa por ela, ao passo em que isso provoca certo prazer na mulher. Na cena seguinte, Maria tem a possibilidade de ajudar seu marido em um momento decisivo, mas opta por não fazer nada.

O estudo de Karin talvez seja o mais complexo do filme. Se Agnes sofre por não ter sido amada e Maria por querer amor demais, ela sofre por não conseguir lidar com o amor. Ao sinal de qualquer demonstração de afeto, ela se fecha, e impede a construção de relações mais humanas. A cena que simboliza isso, e talvez a mais assustadora do filme, é a em que a personagem pratica um ato de automutilação e aparenta sentir prazer por isso. Por fim, o espectador é levado a conhecer a empregada, Anna. A mais inocente dentre as quatro protagonistas, ela precisa reprimir suas emoções de forma mais racional, pois a casa é seu ambiente de trabalho. Porém, é Anna que possui a relação mais saudável e afetuosa com Agnes.

Por meio de um sonho, Bergman nos mostra o profundo sofrimento com o qual Anna está lidando com a morte iminente de mais uma pessoa que ama, pois no começo do filme nos é revelada uma grande perda que ela já sofreu. Como já foi visto no modo como o filme é estruturado, o tempo é fundamental na obra, e constantemente há imagens de relógios. O tempo é uma corda que amarra essas quatro mulheres juntas, e, ao mesmo tempo, aperta-as. Tempo é o que falta para Agnes, que está à beira da morte; é o que aterroriza Maria, que sabe que está mudando e que não gosta de tais mudanças; é o que foi desperdiçado por Karin, que reflete constantemente sobre as mentiras que fizeram parte de sua vida; e é pouco preenchido por amor para Anna, que vive entre muitos maus-tratos e pouco amor.

Gritos e Sussurros, além de interpretações magníficas e um roteiro riquíssimo de Bergman, possui como grande trunfo a fotografia vencedora do Oscar de Sven Nykvist, grande amigo e colaborador de longa data do diretor. O uso de fumaça contribui para a atmosfera densa e claustrofóbica do filme, que é predominantemente marcado pelo uso da cor vermelha. Quando perguntado sobre o uso dessa cor, Bergman disse que sempre imaginou a alma humana como uma membrana formada por várias camadas de vermelho. Por isso, o uso de móveis, paredes e efeitos visuais dessa cor têm como finalidade expressar a dissecação da alma das personagens, e, indo para outra interpretação, representa o inferno no qual aquela casa e a vida delas se tornaram.

O filme é repleto de cenas estonteantes, como a clássica em que Agnes está deitada no colo da seminua Anna. O expressivo uso do vermelho e os fortes contrastes entre luz e sombra, além dos temas da religiosidade (um dos preferidos do cineasta), vida, e morte fazem do filme um grande exemplo do movimento barroco no cinema. Ingmar Bergman já foi criticado por sua visão predominantemente pessimista acerca da vida, mas Gritos e Sussurros é um exemplar de que a visão do artista não é completamente sombria. A obra mostra diversos tipos e exemplos de sofrimento na existência humana, mas, na cena final, o diretor mostra uma alternativa para isso. Uma lembrança de Agnes em que ela, suas irmãs e Anna estão passeando pelos campos que circundam a casa. Naquele momento, a moça doente percebe o que realmente é felicidade. E, para isso, ela só precisou amar e ser amada pelas pessoas que importam em sua vida. Naquele momento, ela aceita seu destino trágico sem pesar.

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8.6 Ótimo

Gritos e Sussurros é uma das obras-primas do mestre Ingmar Bergman. Um filme que marca por suas imagens fortes e belas, e pelas interpretações de suas protagonistas, que dificilmente saem da memória.

  • IMDb 8.2
  • Roteiro 8.5
  • Elenco 9
  • Fotografia 9.5
  • Trilha Sonora 8
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Sobre o Autor

Luiz Eduardo Luz

Publicitário, amante da sétima arte e colecionador de filmes, escreve sobre cinema para o Canto Dos Clássicos. Frase preferida do cinema: “Tudo bem, Sr. DeMille, estou pronta para o meu close-up.” – Crepúsculo dos Deuses.