Lóki? – Arnaldo Baptista (Resenha)

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Depressão profunda, reclusão na Cantareira, angústia, separação e grandes doses de LSD marcam o primeiro disco da carreira solo de Arnaldo Baptista Lóki? (1974). Todos esses sentimentos e ações presentes no álbum começaram após seu divórcio com Rita Lee em 1973, além da expulsão da cantora dos Mutantes por não ser considerada uma música virtuosa e apta para a fase progressiva que Os Mutantes pretendiam entrar. Antes da saída da cantora da banda, Arnaldo e seu irmão Sérgio Dias ainda lançam o disco “O Primeiro Dia Do Resto Da Sua Vida”, um disco solo de Rita Lee, mas com todos os instrumentos feitos pelos irmãos Baptista. Em seguida – e agora sem Rita – Os Mutantes lançam o disco “O A e o Z” e logo depois, Arnaldo sai da banda.

Arrasado com a separação, leva até André Midani, o presidente da gravadora Philips na época, a ideia de gravar seu primeiro disco solo. Sentindo que o músico precisava gravar suas canções para tirar toda tristeza do peito, Midani deu bandeira verde para o projeto. E é com seus parceiros de Os Mutantes, Liminha (baixo) e Dinho (bateria), além de arranjos orquestrais de Rogério Duprat em duas músicas, que um dos discos mais deprês da música brasileira é gravado sem ensaio e praticamente de uma só vez.

A primeira faixa, “Será Que Eu Vou Virar Bolor?”, mostra com tristeza e tom de desprezo em forma de brincadeira como nossa existência é simples, passageira, como tudo tem sua hora pra acabar. “Não Estou Nem Aí” escancara a indiferença que só a depressão pode trazer para a existência, onde não se liga mais pra vida, nem para morte.

O que é isso, meu amor?
Será que eu vou morrer de dor?
O que é isso, meu amor?
Será que eu vou virar bolor?

Em “Honky Tonky (Patrulha Do Espaço)”, Arnaldo faz um jazz fusion com pitadas de música erudita, em homenagem a sua mãe que também era pianista. Em seguida, temos a faixa-título “Cê Tá Pensando Que Eu Tô Loki?”, um samba que mostra a versatilidade do músico na hora de compôr.  A canção alfineta Rita Lee com o trecho “Cilibrina pra cá/Cilibrina pra lá”, uma referência ao projeto folk “Cilibrinas do Éden”, que rendeu apenas um disco e logo se tornou a banda de apoio da carreira solo de Rita, a Tutti-Frutti. Além da ironia, a música é uma das mais autobiográficas do cantor. “Procurei me abrir no sentido mais total possível. Virou até filme. Nem sei se mereci”, diz Arnaldo em entrevista para o Estadão.

Depois do trocadilho para Rita na música anterior, parece que Arnaldo se arrepende e nos apresenta a canção “Desculpe”, uma balada com letras melancólicas sobre arrependimento. Emociona até mesmo os insensíveis. O clima de perdão e infelicidade continua no belíssimo trabalho de piano em “Navegar De Novo”. Por ter se isolado em um sítio na Serra da Cantareira, o verso “Que está muito dura a vida nesta cidade de SP” fica ainda mais melancólico e poético.

O disco é um dos principais da música brasileira e mostra a grande viagem de Arnaldo em ser humano, apoiando-se nas drogas, nas experiências e tristezas da vida. É uma linha tênue entre amor e ódio e principalmente, entre loucura e genialidade.

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8.8 Muito bom

Um disco que mostra a linha tênue entre genialidade e loucura. É um clássico da música brasileira feito para expurgar os males da alma e dissecar a tristeza.

  • Originalidade 9.5
  • Letras 8.5
  • Instrumental 8.5
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Sobre o Autor

Bruno Ascari

Colecionador vinil e músico frustrado, vive procurando novos álbuns para ouvir. Escreve sobre música e tem toque por praticamente só ouvir discos inteiros.