Os Pássaros – 1963 (Resenha)

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Alfred Hitchcock ainda colhia os frutos que plantara em sua última obra, Psicose (1960), quando realizou o filme mais enigmático e controverso de sua longa carreira cinematográfica. Os Pássaros, de 1963, permanece até então como um enigma. Amado e cultuado por muitos como uma obra de arte legítima ou como uma expressão do que há mais sutil no gênero terror. Mal compreendido e criticado por outros, que consideram o filme uma anomalia criativa do mestre do suspense, uma trama ridícula numa situação absurda. Apesar das divergências é unânime a opinião de que Os Pássaros é um clássico da cinematografia e um marco dos anos 1960.

Baseado em um conto de Daphne Du Maurier, com roteiro de Evan Hunter, o filme começa em um pet shop de San Francisco, aonde a senhorita Melanie Daniels (Tippi Hendren) vai à procura de um pássaro. Enquanto aguarda um telefonema da atendente é abordada por um homem que supostamente a confunde com a vendedora da loja. O freguês está à procura de um par de periquitos para presentear a sua irmã no aniversário de 11 anos. Melanie finge ser a atendente, mas acaba acarretando uma série de situações embaraçosas por na verdade não entender nada sobre aves.

O sujeito então se despede da senhorita Daniels chamando-a pelo nome. Isso intriga a moça, ainda mais pelo fato de ele afirmar já conhecê-la de um tribunal. O homem vai embora sem se apresentar e Melanie logo trata de investigar a identidade misteriosa do comprador de pássaros anotando a placa do seu carro e descobrindo seu endereço através de contatos na seção de notícias locais que pertence ao seu pai.

Melanie descobre a identidade do estranho. Chama-se Mitch Brenner (Rod Taylor) e é advogado. Na manhã seguinte, ela leva o par de periquitos para o seu endereço, mas é informada pelo vizinho de Mitch que ele viajou para a pequena cidade costeira de Bodega Bay, onde passa seus finais de semana. A Srta. Daniels trata de ir até a cidadezinha levando as aves em uma gaiola.

Ao chegar a Bodega Bay, Melanie se informa com os moradores locais sobre o paradeiro de Mitch e sobre o nome da sua irmãzinha. Vai até a casa da professora Annie Hayworth (Suzanne Pleshette) e descobre que a menina chama-se Cathy. Dirige até a costa e segue de barco à casa dos Brenner, querendo fazer-lhe uma surpresa. Deixa as aves na sala da casa acompanhada de uma carta à Cathy sem que ninguém a veja e volta para a cidade de barco. No entanto, Mitch a vê com um binóculo e dirige rumo ao porto para encontrá-la.

Antes de atracar ao cais, Melanie Daniels é atacada por uma gaivota que fere a sua cabeça. Brenner a socorre e cuida do ferimento em um restaurante do porto enquanto trocam futilidades sobre os motivos da jovem estar em Bodega Bay. No restaurante, coincidentemente a Srta. Daniels conhece a mãe de Mitch, Lidya Brenner (Jessica Tandy) e é convidada pelo advogado para jantar na sua casa. Melanie havia mentido para Brenner que estava hospedada na casa da professora Hayworth e que tinham sido colegas na universidade, então volta a casa dela e aluga um quarto para passar a noite.

Quando Melanie chega à casa dos Brenner conhece sua irmãzinha Cathy (Veronica Cartwright). Antes do jantar, a senhora Lidya está preocupada com as suas galinhas, que não quiseram comer ração e descobre ao ligar para a cidade que outros criadores estão tendo o mesmo problema, inclusive com marcas de ração diferentes. Após o jantar Lidya e Mitch conversam na cozinha sobre o passado da visitante, principalmente sobre uma notícia veiculada em um jornal de San Francisco onde dizia que Melanie já havia nadado nua em um chafariz em Roma, entre outras peripécias da juventude. Melanie e Mitch se desentendem e a Srta. Daniels volta para a casa de Annie. Lá, descobre que a professora e Brenner já haviam sido namorados e que a relação dos dois terminou pela personalidade possessiva da mãe dele, no entanto, Annie ainda gostava de Mitch. Ainda na mesma noite, Melanie é convidada por Mitch para participar da festa de aniversário de Cathy no dia seguinte e aceita o convite.

Até então o filme não parece ser de Hitchcock, a não ser pela sagacidade em abordar aspectos aparentemente simples, mas na verdade complexos da natureza humana. Porém, na festa de aniversário de Cathy algo inesperado acontece. Enquanto os convidados comem e se divertem no quintal, um ataque furioso de gaivotas desaba sobre eles. Durante a noite, na casa dos Brenner, uma nuvem de pardais agressivos e descontrolados cai pela chaminé e provocam uma grande bagunça no interior da residência.

No dia seguinte, após o susto, Lidya vai visitar um amigo, mas o encontra morto dentro de seu quarto, mutilado por bicadas de pássaros e rodeado de aves mortas por toda parte. No meio dessas situações bizarras e assustadoras, Melanie e Brenner se tornam mais próximos e assumem o romance. Apesar das enormes diferenças entre si, a Sra. Brenner e a Srta. Daniels também vão criando laços afetivos.

Quando Melanie vai buscar Cathy na escola protagoniza a cena mais antológica do filme. Enquanto está sentada fumando um cigarro em um banco do pátio, um brinquedo do parquinho começa a ficar enfestado de corvos. Melanie avisa a professora Annie que não deixe as crianças saírem para o recreio. Eles simulam uma emergência de incêndio e se põem a correr, no entanto, o ataque dos corvos é inevitável. Melanie e Cathy se salvam por pouco dentro de um carro. Minutos depois Melanie Daniels vai até o restaurante ligar para Mitch. Lá se envolve em uma discussão sobre o ataque dos pássaros que vai desde a perícia feita por uma velha especialista em aves até as profecias apocalípticas aviárias de um bêbado no bar.

Na rua, as aves voltam a atacar provocando uma explosão no posto de gasolina e uma série de catástrofes e mortes na cidade. Mitch e Melanie conseguem se refugiar novamente no restaurante, mas entre algumas mulheres que estão escondidas lá, uma senhora histérica culpa a Srta. Daniels pelo ataque dos pássaros, que começou assim que ela chegou a Bodega Bay.  Assim que o ataque termina, o casal vai buscar Cathy na residência de Annie e encontram a professora morta na área da casa. O medo e a histeria vão se tornando coletivos. Os Brenner se trancam dentro da casa, mas sofrem outro grande ataque durante a noite com direito a janelas estilhaçadas, portas rachadas e muito sangue. As cenas finais são surpreendentes, aterradoras e de um suspense só mesmo produzido pelo mestre do gênero. Sendo um filme de Hitchcock, não me atrevo a contar o final.

Além da trama, a questão técnica do filme também se tornou clássica. Desde os cenários complementados com pinturas, passando pelos grandes pássaros de borracha presos a barbantes e indo até a sonorização adotada para causar pavor. Na sequência final, Hitchcock não quis introduzir a palavra “Fim” ou “The end”, por considerar que o horror da trama não acabaria ali. O grande enigma do filme é: por que os pássaros atacam?  AS interpretações são várias e essa ambiguidade é que garantiu o sucesso do longa metragem. Além disso, o filme aborda questões muito polissêmicas como o feminismo e a autonomia das mulheres, as relações de ciúmes e o Complexo de Édipo, a relação do homem com a natureza, etc. Indicado ao Oscar 1964 como Melhores Efeitos Especiais, o controverso Os Pássaros é um dos filmes de terror mais cultuados da história.

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8.4 Muito bom

O filme aborda questões muito polissêmicas como o feminismo e a autonomia das mulheres, as relações de ciúmes e o Complexo de Édipo, a relação do homem com a natureza, etc. Indicado ao Oscar 1964 como Melhores Efeitos Especiais, o controverso Os Pássaros é um dos filmes de terror mais cultuados da história.

  • IMDb 7.7
  • Roteiro 8.5
  • Elenco 9
  • Fotografia 9
  • Trilha Sonora 8
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Sobre o Autor

Bruno Yashinishi

Pesquisador na área do cinema com ênfase em História do Cinema, relação entre Cinema e História e cinema e Filosofia. Pesquisador do cinema clássico contemporâneo com ênfase nas obras do diretor Stanley Kubrick, bem como seu procedimento estético e narrativo. Atualmente é professor de Filosofia, Sociologia e Ensino Religioso nas séries do Ensino Médio de colégios da rede particular de ensino.