Ladrões de Bicicletas – 1948 (Resenha)

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Na história do cinema, é comum que alguns movimentos estéticos e/ou narrativos sejam costumeiramente citados entre os mais importantes para a evolução do meio como um todo. Entre eles estão os importantíssimos expressionismo alemão, a nouvelle vague francesa e a Nova Hollywood, por exemplo. Além destes, um dos mais relevantes para a história da sétima arte é o neorrealismo italiano.

Após a Segunda Guerra Mundial, a Itália estava destruída, financeira e moralmente. Esse cenário afetou profundamente a indústria cinematográfica do país, que não possuía mais os recursos para produzir os filmes pelos quais ficara famosa, como os épicos históricos e as sofisticadas comédias “telefone branco”, populares por retratarem a vida das classes econômicas mais altas.

Como forma de resposta aos gêneros citados, diversos cineastas mudaram radicalmente o conteúdo abordado nas obras. Nomes como Roberto Rosselini e Luchino Visconti foram fundamentais para o desenvolvimento do movimento, que contou com um participante inusitado: o ator Vittorio De Sica. Famoso por ser um dos grandes astros do “telefone branco”, tornou-se um dos expoentes do neorrealismo por seu trabalho na direção, especialmente pelo filme Ladrões de Bicicletas (Ladri di Biciclette, 1948), sua magnum opus.

O filme, que foi citado por Martin Scorsese como um de seus favoritos e uma influência fundamental para sua carreira como cineasta, conta a história simples de um homem, Antonio (Lamberto Maggiorani), que luta para conseguir um emprego. Logo que encontra uma vaga, encara um problema: precisa de uma bicicleta para garantir sua contratação, e a sua foi empenhada para que ele conseguisse comprar comida para a família. Sua esposa, Maria (Lianella Carell), empenha seus melhores lençóis para conseguir recuperar a bicicleta, assim possibilitando que Antonio aceite o emprego. Contudo, logo em seu primeiro dia como colador de cartazes, a bicicleta é roubada.

Começa então a jornada de Antonio e seu pequeno filho Bruno (Enzo Staiola) em busca do ladrão e da bicicleta. Sem ela, o homem não pode trabalhar e, portanto, sustentar sua família. Os personagens fazem de tudo para encontrar o objeto. Pedem ajuda para amigos, vão a feiras, perseguem pessoas que possam ter relação com o ladrão – tudo na esperança de fazer justiça e recuperar o que lhes pertence por direito.

Antonio não se conforma com o ocorrido. “Eu fui amaldiçoado desde o dia em que nasci”. Após uma última tentativa frustrada de pegar o criminoso, ele entra em desespero. Como iria trabalhar? Como iria sustentar sua família? Como iria dar uma boa vida ao seu filho? Todas essas dúvidas estão presentes na mente do protagonista, e, invariavelmente, chegam à cabeça do espectador, que se coloca no lugar do pobre Antonio. Em meio a esse tormento, o pai de família se vê dividido: se sendo bom, nunca alcançou nada na vida, por que não tentar de outro jeito? Sua ética entra em guerra com seu nervosismo, em uma cena magistralmente dirigida por De Sica, que, junto da música de Alessandro Cicognini, promove um momento de tensão absoluta. Ao fim, a decisão de Antonio acarretará em uma profunda desolação. A cena final, em que Bruno segura a mão de seu devastado pai, é uma das conclusões mais tocantes que o cinema já viu. Naquele momento, os papéis entre os dois se invertem.

Ladrões de Bicicletas é a síntese do neorrealismo italiano. A história aparentemente simples consegue ter um apelo universal, e o forte humanismo do roteiro é responsável pela aclamação e culto que o filme recebe até hoje. Ao contrário do que se via no cinema italiano até então, o movimento que De Sica e outros diretores promoveram foi o de colocar o cidadão italiano comum e ordinário no centro da história, com todos os problemas cotidianos que todas as pessoas têm que enfrentar, como, por exemplo, o da dificuldade de se arranjar um emprego (principalmente analisando o contexto pós-guerra em que a obra se insere). De Sica foi muito ousado ao realizar o filme, pois o fez apenas com atores amadores. Para ele, o uso de um ator profissional diminuiria a veracidade e o impacto que o filme provoca em quem assiste. E é justamente o impacto da mensagem que transmite que torna o filme tão essencial, mesmo quase setenta anos depois de seu lançamento.

A mensagem de que, mesmo sendo justos e corretos, ainda estamos suscetíveis a não realizarmos nossos sonhos. Antonio e Bruno são um espelho de centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo que não são ajudadas, não têm voz, não tem escapatória.

Para eles, e para todas essas pessoas, resta apenas sobreviver da melhor forma possível. O neorrealismo italiano colocou a vida do cidadão comum em foco, e ganhou evidência em todo o mundo. Influenciou diretores de todos os continentes, como Ken Loach, Satyajit Ray e Robert Altman. Continua sendo um exemplo de que, para mudar o modo como uma arte se expressa, não são necessários grandes avanços tecnológicos ou estéticos. Às vezes, basta mudar a forma de pensar como e o quê deve ser expresso.

8.4 Ótimo

O universal Ladrões de Bicicletas é um dos filmes mais importantes da história do cinema italiano, aclamado por seu humanismo forte e por ser um dos pilares do seminal movimento neorrealista do período pós-guerra.

  • IMDb 8.3
  • Roteiro 8.5
  • Elenco 8
  • Fotografia 8.5
  • Trilha Sonora 8.5
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About Author

Luiz Eduardo Luz

Publicitário, amante da sétima arte e colecionador de filmes, escreve sobre cinema para o Canto Dos Clássicos. Frase preferida do cinema: “Tudo bem, Sr. DeMille, estou pronta para o meu close-up.” – Crepúsculo dos Deuses.

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