Legião Invencível – 1949 (Resenha)

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +

O faroeste, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, é um gênero riquíssimo que possibilita diversas abordagens históricas, sociais, narrativas, técnicas e estéticas. Existem filmes que tratam de pistoleiros solitários, normalmente em busca de dinheiro. Outros abordam grupos de amigos que realizam serviços juntos. Muitos tratam de bandos criminosos que aterrorizam as pessoas e suas cidades. Há aqueles que bebem da expansão ferroviária. E, também, existem westerns que focam suas lentes na Guerra Civil dos Estados Unidos, seu período anterior ou posterior.

O diretor John Ford, maior mestre do gênero, trabalhou e dissecou grande parte dos temas que o Velho Oeste traz. No que diz respeito à guerra, ele preferiu trabalhar em filmes que tratassem do exército americano no período subsequente ao conflito. Disso, nasceu a Trilogia da Cavalaria. Composta por Sangue de Heróis (Fort Apache, 1948), Legião Invencível (She Wore A Yellow Ribbon, 1949) e Rio Bravo (Rio Grande, 1950), o tríptico conta histórias heroicas e épicas sobre os integrantes da cavalaria estadunidense em suas muitas campanhas contra os índios nativos do país. Todos eles são protagonizados pelo astro John Wayne, eterno colaborador de Ford. Embora Sangue de Heróis possua Henry Fonda em uma brilhante atuação de um personagem complexo e falho, e Rio Bravo conte uma belíssima história familiar, é de Legião Invencível o posto de grande filme do grupo.

Escrito por Frank Nugent e Laurence Stallings, o filme conta a história do Capitão Nathan Brittles (Wayne), em meio aos últimos dias de sua carreira no exército. Após um violento massacre sofrido por outro pelotão nas mãos das tribos indígenas, sua unidade é convocada para realizar uma longa viagem para proteger uma comunidade ameaçada de ataque. Porém, logo antes de partir, o capitão recebe a ordem de escoltar a esposa e a filha de seu comandante pelo caminho, o que poderia prejudicar a eficiência de sua patrulha. Na noite anterior, Brittles vai ao túmulo de sua falecida esposa para contar as novidades e dizer que está é sua última missão antes da aposentadoria. Lá, a filha do comandante, Olivia (Joanne Dru), pede desculpas por um incidente ocorrido na mesma tarde, e dá um presente ao capitão, o que gera afeto entre os dois. Mesmo assim, o capitão sabe que a presença das moças pode atrapalhar sua viagem.

E é isso que acontece: a presença de Olivia desencadeia constantes (e hilárias) brigas entre o tenente Cohill (John Agar) e o segundo tenente Pennell (Harry Carey Jr.), ambos apaixonados pela moça. Ao mesmo tempo em que tem que administrar essa tensão, Brittles deve correr contra o tempo para antecipar o ataque dos índios, e lutar contra a ansiedade e o medo de sua aposentadoria iminente. O exército é a vida do personagem. É tudo que ele conhece. Ao mesmo tempo em que anseia por um novo capítulo em sua vida, teme pela ausência daquilo pelo qual se dedicou durante mais de quarenta anos. O capitão fica horrorizado em pensar em sua existência sem pessoas que o olhem e batam continência. Brittles teme a perda de poder.

Mas ele não abusa de seu poder. Usa-o com sabedoria, sempre visando o melhor desempenho possível para seus homens e sua missão. Em determinado momento do filme, ele manda todos os viajantes descerem de seus cavalos e caminharem por uns minutos, para que o médico do pelotão possa tratar decentemente de um homem agonizando com uma flecha em seu leito. Isso mostra o coração de Brittles. Quando chega ao local da missão, o pelotão percebe que fracassou. Os índios já passaram por ali, deixando um terrível rastro de morte e sofrimento. Desolado, o capitão volta ao forte e solicita permissão para voltar e atacar os índios. Seu pedido é negado, pois aquele era seu último dia no exército. O fim do filme mostra a tomada de posição de Brittles em relação a sua aposentadoria, ao exército e à velhice, em um desfecho memorável, digno do grande personagem construído ao longo do roteiro.

Ford constrói Legião Invencível como uma espécie de road-movie, de maneira similar ao que havia feito com Vinhas da Ira (The Grapes Of Wrath, 1940). Utilizando muito bem (como sempre) o uso de sugestões visuais em detrimento do diálogo, ele eleva o trabalho dos atores a outro patamar. O roteiro conta com diálogos bastante interessantes, dosando humor, com os soldados, e drama, com Brittles, de forma orgânica e espontânea. Um dos pontos altos do filme é a fotografia de Winton C. Hoch, vencedor do Oscar por este trabalho. Único integrante da Trilogia da Cavalaria a ser filmado em cores, Legião Invencível, por ser, em grande parte, um filme de estrada, é um desfile de belas imagens. Ford amava ambientar seus filmes no Monument Valley, e retratava-o como ninguém. O trabalho de Hoch é similar ao de pinturas expressionistas, tendo o céu como seu grande aliado.

A cena em que o capitão senta ao lado da lápide de sua esposa possui uma paleta de cores absolutamente inesquecível. Mas o destaque do filme é a atuação de John Wayne. Brittles é, possivelmente, um de seus melhores personagens, e o astro equilibra a firmeza de um comandante com a sensibilidade de um mentor de forma impecável. Aos que questionam as habilidades de atuação de Wayne, Legião Invencível é uma réplica fundamental. Encabeçado por Wayne e retratado de forma exuberante por Hoch, o filme é um dos mais poderosos faroestes no portfólio do mestre John Ford.

8.0 Muito bom

Filme mais conhecido da Trilogia da Cavalaria de John Ford, Legião Invencível é um faroeste de primeira categoria, ancorado por uma grande atuação de John Wayne e pela fotografia vencedora do Oscar de Winton C. Hoch.

  • IMDb 7.4
  • Roteiro 7.5
  • Elenco 8
  • Fotografia 9
  • Trilha Sonora 8
Espalhe Cultura:

About Author

Luiz Eduardo Luz

Publicitário, amante da sétima arte e colecionador de filmes, escreve sobre cinema para o Canto Dos Clássicos. Frase preferida do cinema: “Tudo bem, Sr. DeMille, estou pronta para o meu close-up.” – Crepúsculo dos Deuses.