A Mulher Faz o Homem – 1939 (Resenha)

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A sociedade contemporânea vive tempos de grande desesperança política. Talvez como nunca antes em sua história. Não só no Brasil. O mundo todo está questionando os modelos tradicionais de governo e demandando mudanças no modo de se comandar. Há uma crise de confiança, também. Parece que não existem opções de representantes que possam trazer, de fato, essa nova era. Mas será que os problemas na política surgiram agora? Não, não surgiram. Eles existem há muito tempo, e o cinema, também há muito tempo, usa de seu encanto e poder para denunciar e questionar a política.

Um dos mais belos e clássicos exemplos é o filme A Mulher Faz O Homem (Mr. Smith Goes To Washington) dirigido pelo lendário cineasta Frank Capra. Naquele ano, em 1939, o cineasta ítalo-americano já era um dos grandes nomes da indústria cinematográfica dos EUA. Com três prêmios da Academia na categoria de Melhor Diretor em mãos, Capra decidiu realizar um filme que atacasse a corrupção no governo do país e, ao mesmo tempo, destacasse os ideais originais da nação que o acolheu. A partir do roteiro de Sidney Buchman, A Mulher Faz O Homem nasceu.

O enredo conta a história de um homem comum, Jefferson Smith (James Stewart), que é selecionado pelo governador do estado para assumir um dos dois cargos de senador da república, em decorrência da morte do antigo ocupante. Essa manobra foi tramada pelo outro senador do estado, Joseph Paine (Claude Rains), e pelo poderoso empresário Jim Taylor (Edward Arnold), que usa sua influência para comandar todos os políticos do estado (e a maioria do país). O jovem e patriota Smith foi escolhido porque era considerado ingênuo e maleável, o que permitiria aos políticos controlarem seus votos e manter no cargo alguém que não fizesse perguntas.

Em seu discurso de posse, Jefferson revela que ficou muito feliz com a oportunidade de trabalhar com o senador Paine, que fora melhor amigo de seu pai. O velho senador não sabia que o rapaz era filho de seu grande amigo, o que desperta certo carinho em seu coração. Desde que chega à Washington, o protagonista fica admirado com a história e o significado de construções clássicas, como a Casa Branca.

Quando começa a trabalhar, conhece Saunders (Jean Arthur), sua secretária de discurso rápido e língua afiada, que sempre está desfilando sua doce ironia. A moça está descrente com seu trabalho, pois acredita que tem muito potencial, e está o desperdiçando trabalhando para um bando de políticos corruptos. Porém, isso começa a mudar quando ela começa a se aproximar de Smith, um rapaz tão honesto e motivado a ajudar as pessoas.

Como forma de “se livrar” de Smith por um tempo, o senador Payne pede que ele escreva um projeto de lei pessoal, que possa ajudar as pessoas. Empolgado, Smith convence Saunders a ajudá-lo e, em uma noite, o projeto estava escrito. O grande conflito do filme inicia quando o jovem revela, no congresso, que deseja realizar um acampamento nacional de jovens. O problema é que ele deseja realizar o projeto no mesmo local onde Taylor e Paine estão planejando uma represa, que será usada para trocas de favores e distribuição de propinas para diversos políticos. Quando a verdade vem à tona, Paine e os demais políticos de Washington fazem de tudo para destruir a imagem e a carreira de Smith. Desolado, ele conta com a ajuda e o amor de Saunders para enfrentar os políticos corruptos, o magnata Taylor e o ex melhor amigo de seu falecido pai, o senador Paine, em um encontro épico no congresso nacional, onde o jovem poderá lutar por todos os seus ideais de honra, honestidade e bravura.

A Mulher Faz O Homem é um filme de Frank Capra e, por isso, possui todos os aspectos que marcam sua deliciosa filmografia. O romance entre pessoas de personalidades completamente distintas, a exaltação de valores tradicionais, o idealismo com que trata a vida, a sofisticação com que mescla drama e comédia, entre tantas outras marcas. Neste filme não é diferente, e essas características estão fortemente presentes. A dinâmica entre James Stewart, um dos maiores atores da história do cinema, e Jean Arthur, uma das grandes estrelas do início da era falada de Hollywood, é simplesmente inesquecível. A ingenuidade de Smith contrasta com a inteligência de Saunders no começo, e, ao longo do filme, as qualidades de um começam a surgir no outro, com o jovem acordando para a sujeira dos políticos e com ela abraçando e lutando os ideais defendidos pelo rapaz. O elenco de apoio é excelente, principalmente com a atuação de Claude Rains, o eterno Capitão Louis Renault, de Casablanca.

Mas o grande triunfo do filme é a mensagem que passa ao expectador. A mensagem de que, não importa o quão impossível pareça uma causa, o quão improvável sejam as chances de sucesso, o quão incontornáveis sejam os obstáculos, vale a pena lutar pelo que é certo. Porque, segundo o próprio Jefferson Smith, essas são as causas pelas quais se vale a pena lutar. Quase oitenta anos depois do lançamento de A Mulher Faz O Homem, Frank Capra nunca foi tão atual. Em meio ao caos de denúncias e escândalos políticos, intolerância e violência em que o mundo mergulhou, um filme consegue mostrar o caminho. É difícil, evidentemente, mas não é impossível. Jefferson Smith mostrou (que performance extraordinária de Stewart!) que, mesmo em absoluta desvantagem, uma pessoa pode enfrentar os males da sociedade e lutar por um mundo melhor. É comum ler e ouvir críticas ao idealismo e otimismo que Capra coloca em seus filmes, com alegações de que a vida não é como a representada em suas obras. Bom, se a arte imita a vida, que seja o contrário nesse caso. Que a vida comece a parecer um pouco mais com os filmes de Frank Capra.

8.3 Ótimo

Frank Capra traz em um de seus melhores filmes, A Mulher Faz o Homem, uma história de amor e coragem envolvendo um jovem que cai de paraquedas no senado dos EUA, inspirando cinéfilos há quase oitenta anos.

  • IMDb 8.2
  • Roteiro 8.5
  • Elenco 9
  • Fotografia 8
  • Trilha Sonora 8
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About Author

Luiz Eduardo Luz

Publicitário, amante da sétima arte e colecionador de filmes, escreve sobre cinema para o Canto Dos Clássicos. Frase preferida do cinema: “Tudo bem, Sr. DeMille, estou pronta para o meu close-up.” – Crepúsculo dos Deuses.

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