Nosferatu – 1922 (Resenha)

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O Expressionismo Alemão foi, sem dúvida, um dos mais importantes e marcantes movimentos cinematográficos da história. Essa tendência artística popularizou-se na Europa durante as primeiras décadas do século XX, muito influenciada pelo contexto da Primeira Guerra Mundial, onde buscou expressar sentimentos ocultos da alma humana, como o terror, o desespero e o fascínio pelo sombrio através de interpretações e cenários caricatos, constante dualismo entre luzes e sombras, maquiagens pesadas e impressionantes, etc.

Um dos maiores expoentes do Expressionismo alemão foi Friedrich Wilhelm Murnau (1888-1931), grande realizador do cinema mudo e do movimento Kammerspiel, que consistia em pouco uso de diálogos e destaque para a personalidade de suas personagens.

Em 1922, Murnau realizou o filme Nosferatu: uma sinfonia do horror (Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens em alemão). O roteiro é uma adaptação quase perfeita do romance Drácula (1897) escrito pelo irlandês Bram Stoker, no entanto, o título do filme e os nomes de personagens e lugares da trama precisaram ser alterados, pois a família do escritor não autorizaram na época os direitos autorais da obra.

O longa começa com um relato de como a cidade portuária de Wisborg foi assolada pela peste em 1838. O corretor de imóveis Knock (Alexander Granach) recebe uma carta de um conde dos Montes Cárpatos chamado Orlok (Max Schreck) procurando uma residência em Wisborg. Knock se entusiasma com a demanda do conde e encarrega seu empregado, o jovem Thomas Hutter (Gustav von Wangenheim) a ir até o castelo de Orlok para lhe apresentar pessoalmente uma casa disponível, que coincidentemente fica em frente à casa de Thomas.

O jovem Hutter é devotamente apaixonado por sua esposa Ellen (Greta Schröder) e quando esta fica sabendo da viagem do marido começa a se preocupar, pois tem muitos planos para o casal e teme por sua segurança. No entanto, Thomas parte em viagem rumo à cidade do conde. Chegando lá, os moradores locais parecem possuir um medo avassalador quando ouvem o nome Orlok. Em uma pensão em que Hutter se hospeda é desencorajado pelas pessoas a seguir em frente com sua missão através de histórias de vampiros e lobisomens escritas em um pequeno livro dado a ele, porém, sem entender o real temor dos moradores segue rumo aos aposentos do conde.

Hutter é levado por uma estranha carruagem por entre uma floresta escura e sinistra. Um pouco assustado, mas ainda assim persistente Hutter se encontra com o conde Orlok, um sujeito magro, careca, curvado e de aparência extremamente assustadora. A acolhida, porém é amistosa, Orlok logo trata de preparar um jantar para o visitante. Thomas num descuido corta o dedo com uma faca e causa uma reação surpreendente do conde quando vê o seu sangue. O jovem aprendiz de corretor quer ir embora, mas Orlok insiste para que ele passe a noite em seus aposentos. Na manhã seguinte Thomas está mais tranquilo e descansado, porém nota que há duas pequenas marcas de mordida em seu pescoço, as quais ele atribui aos mosquitos. Durante o dia ele passeia pelos aposentos e envia uma carta à sua amada. Quando chega a noite se encontra novamente com Orlok e enquanto lhe apresenta a papelada da imobiliária deixa cair um pequeno retrato de Ellen em cima da mesa. O conde fica hipnotizado pela figura da jovem dizendo: “Que lindo pescoço a sua mulher tem”.

Imediatamente o conde Orlok aceita comprar a casa e assina a escritura. Antes de dormir, Hutter lê no livrinho que ganhou sobre Nosferatu, o vampiro, que a noite suga o sangue de suas vítimas. Percebe que se trata de Orlok e acaba desmaiando em seu quarto. Enquanto o conde bebe o sangue de seu pescoço, Ellen parece pressentir telepaticamente os horrores que o marido está passando, tendo crises de sonambulismo e alucinações em Wisborg. Quando amanhece Thomas Hutter decide investigar os mistérios que está presenciando. Adentrando em um mausoléu descobre um caixão dentro do qual Orlok dorme tranquilamente. Naquela noite vê o conde carregar uma carruagem com vários caixões e partir dentro de um deles.

Hutter decide fugir do castelo. Faz uma corda com lençóis e se atira pela janela. Encontrado inconsciente pelos moradores locais é levado para o hospital. Enquanto isso, Orlok trata de pôr os caixões sobre uma jangada e ser levado com eles para um veleiro que o conduz rumo à Wisborg. Ao se recuperar, Thomas parte imediatamente para sua terra, pois a essa altura já percebe o perigo que Ellen está a correr.

No veleiro, os tripulantes estranham o carregamento funéreo. Percebem uma carta de recomendação para que assegurem o transporte dos caixões e para que não os abram. Curiosos, os tripulantes abrem um dos caixões e se surpreendem com terra e ratos em seu interior. Pouco a pouco a tripulação vai morrendo ao contrair a peste trazida pelos ratos e quando chega ao seu destino, o veleiro já está com seus tripulantes todos mortos.

Em Wisborg, o imobiliário Knock ficou louco e está mantido em uma cela. Ao delirar parece pressentir a chegada de Nosferatu na cidade. De fato, quando a embarcação chega ao seu destino traz consigo o diário de bordo alarmando o contágio da peste. As autoridades locais ficam atônitas e declaram estado de emergência, no entanto já era tarde demais, a peste se alastra por Wisborg através dos ratos dizimando boa parte da população e tornando a cidade um caos. Knock é culpado pelo alastramento da epidemia, sofre perseguição, mas acaba fugindo. O professor Bulwer (John Gottowt), especialista em epidemias, não descobre antídoto contra essa peste.

Ellen tem frequentes crises de alucinações durante a noite. Quando Hutter finalmente consegue voltar pra casa trata rapidamente de se encontrar com a amada e velar por sua segurança. O conde Orlok, Nosferatu, leva seus caixões e acomoda-se na velha casa em frente à de Hutter. Durante a noite aparece como uma figura sombria na janela espiando o quarto de Ellen, esta por sua vez lê no pequeno livro de Hutter sobre o vampiro e seu legado demoníaco. Ellen descobre que para deter Nosferatu deve lhe oferecer o próprio sangue, pois somente uma mulher pode levá-lo ao “esquecimento do canto do galo”, ou seja, deve garantir que o vampiro fique a sugar o seu sangue até o raiar do dia e só assim enfraqueceria a besta. Com isso a jovem entra em desespero e seu marido sai às pressas procurar um médico.

Nosferatu fica estonteado com a beleza da jovem e percebendo que ela está sozinha consegue se infiltrar em seu quarto.  O encontro do vampiro com Ellen é terrível. A moça desmaia de pavor enquanto o conde logo morde o seu pescoço e se alimenta de seu sangue. Saciando-se da jovem durante horas, Orlok não percebe o nascer do sol e é surpreendido pelo cantar do galo. Ao tentar fugir agoniza com a claridade e se desfaz em cinzas.

Quando Hutter chega acompanhado do médico vê sua amada morrer em seus braços. Ainda que trágico, o final da história também leva à morte do vampiro e ao fim da peste na cidade.

Nosferatu é indispensável aos amantes do cinema mudo. Além disso, é considerado por críticos como um dos 100 filmes mais importantes da história. O conde Orlok, interpretado por Max Schreck é uma das criaturas mais apavorantes já retratadas no cinema e se tornou um ícone na concepção de vampiros influenciando essa figura lendária até os dias atuais. Em 1979, a genialidade do diretor alemão Werner Herzog trouxe para o cinema um remake do filme de Murnau com o título Nosferatu, o vampiro da noite, com Klaus Kinski no papel do vampiro e Isabelle Adjani hipnótica como Ellen. Também um clássico, muito mais elaborado e com uma produção mais requintada, porém, não conseguiu superar a originalidade do grande ícone do Expressionismo alemão de 1922.

8.3 Muito bom

Um dos maiores ícones do movimento cinematográfico conhecido por Expressionismo Alemão. Uma obra tida como uma das mais importantes do terror no cinema dirigida por um dos maiores mestres cineastas de todos os tempos, F. W. Murnau. Filme que merece ser visto e revisto sempre que possível.

  • IMDb 8
  • Roteiro 7.5
  • Elenco 9
  • Fotografia 8
  • Trilha Sonora 9
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About Author

Bruno Yashinishi

Pesquisador na área do cinema com ênfase em História do Cinema, relação entre Cinema e História e cinema e Filosofia. Pesquisador do cinema clássico contemporâneo com ênfase nas obras do diretor Stanley Kubrick, bem como seu procedimento estético e narrativo. Atualmente é professor de Filosofia, Sociologia e Ensino Religioso nas séries do Ensino Médio de colégios da rede particular de ensino.