Paciente 67 (Resenha)

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“Neca”, disse Chuck inclinando a cabeça para trás, piscando um pouco por causa do sol e sorrindo para Teddy. “Somos espertos demais para isso.” “É mesmo”, disse Teddy. “Somos muito espertos, não é?”

A mente humana é um lugar fantástico. Milhares de informações, lugares, pessoas, músicas, fotos, sensações, sentimentos, anseios e medos guardados numa pequena e frágil caixa circular que chamamos de cérebro. Tão importante e vital, esse órgão é responsável por absolutamente tudo que diz respeito ao funcionamento do nosso corpo; controla nossas ações e memórias. A questão é: até onde ele aguenta? Como habitantes do planeta Terra, estamos sujeitos aos benefícios e malefícios do mesmo. E como seres humanos, somos fadados a levar conosco marcas de nossa passagem por esse plano. A história de Teddy Daniels e Chuck Aule, em Paciente 67 de Dennis Lehane, fala exatamente sobre essa problemática. Quanta dor, decepção e perda nosso cérebro pode tolerar antes de autodestruir-se? Onde exatamente se encontra a linha entre lucidez e demência?

Lehane constrói a história com uma capacidade incrível de prender a atenção do leitor. Página por página, vai desenhando os personagens e o ambiente, traçando linhas sólidas para definir Teddy, protagonista da história; Chuck, seu fiel e caricato parceiro; Cawley, o ardiloso médico; a grandiosa Shutter Island e o misterioso Hospital Ashecliffe.

No verão de 1954, o Xerife Teddy Daniels chega a Shutter Island para investigar o desaparecimento de uma paciente. Junto de seu novo parceiro, Chuck Aule, tem a missão de encontrar Rachel Solando, que aparentemente sumiu de seu quarto, trancado e guardado constantemente. Na ilha encontra-se o Hospital Psiquiátrico de Aschecliffe, responsável por hospedar pacientes com distúrbios mentais e psicológicos – pacientes que nenhum outro hospital do país aceitou admitir. A maioria dos internos havia cometido crimes graves, sendo considerados perigosos; mortais.

Conforme a investigação segue seu rumo, os agentes descobrem que o desaparecimento de Rachel pode vir a ser o menor de seus problemas. A equipe do hospital não parece nem um pouco preocupada com o sumiço da moça, a recusa de ajuda para os dois torna-se constante e incômoda. Teddy e Chuck veem-se presos em uma trama que envolve drogas alucinógenas, tratamentos cirúrgicos bárbaros e uma loucura criada ao invés de remediada. Como soldado que atuou na Segunda Guerra, seria impossível a Teddy deixar esse tipo de conduta acontecer. Tendo lutado pessoalmente contra o totalitarismo, experimentos psicológicos com intenções de criar um exército de assassinos era impensável. O problema em Shutter Island era bem pior do que os Xerifes imaginaram, pois nada, absolutamente nada – nem mesmo Teddy – provam ser o que parecem.

Tendo perdido sua esposa recentemente, Teddy revela a Chuck que tem outros motivos para estar na ilha. Andrew Laeddis era o incendiário responsável pelo incêndio que matara Dolores, e havia indícios que o homem era um paciente de Ashecliffe. Teddy iria encontrá-lo. Precisava.

Como se não bastasse todos os problemas criados pelos homens, a natureza resolve antagonizar a história em forma de uma tempestade catastrófica. Com o desaparecimento de Chuck, o enredo toma um rumo sinistro em direção a um fim deveras surpreendente. Recheado de tensão, códigos, sonhos (pesadelos?), pistas, diálogos incríveis e personagens afiados, Paciente 67 é uma leitura imprescindível para amantes de leitura – em especial fãs de thriller. Lehane não precisou de monstros e fantasmas para criar uma assombrosa e sedutora narrativa.

As reviravoltas são muitas, criando um ambiente de dúvida e mistério que não se resolve até a última página do livro. Porém, quando a história segue tantos rumos diferentes e muda constantemente é impossível entender tudo na primeira vez. Reler alguns trechos ou capítulos após terminá-lo é quase indispensável para uma experiência 100% válida. Esse fato pode ser incômodo para alguns leitores, porém considero isso um mérito do autor, que mantém sua escrita sufocante e viciante, de forma que reler algumas partes é uma honra, não um fardo.

Nas telonas

Martin Scorsese dirigiu “Shutter Island” (2010)“Ilha do Medo”, no Brasil – , filme estrelado por Leonardo DiCaprio e Mark Ruffalo, inspirado na obra de Lehane. Partindo da máxima que diz “o livro é sempre melhor que o filme”, sugiro que deem atenção especial as 340 páginas antes de checarem o filme. Com uma fotografia belíssima e roteiro adaptado muito bem detalhado, o longa é uma bela representação da história. Com uma apresentação fiel da ilha e atuações em ponto, Shutter Island merece entrar para lista de ‘filmes para assistir’.

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9.0 Ótimo

Escrita eletrizante, bem ambientado e fechamento surpreendente. Indispensável.

  • Personagens 8
  • Enredo 9
  • Feeling 10
  • Escrita 9
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About Author

Jordan Souza

Naturalmente paranoico, curioso e ri de tudo. Cursa publicidade e quer ser um contador de histórias, seja como escritor, redator ou roteirista. Consumidor compulsivo de seriados de TV, sonhador e cantor de chuveiro.

1 comentário

  1. Avatar
    Matheus Justino em

    Que excelente resenha, concordo com muito do que foi dito, principalmente referente a exemplar e enervante atmosfera construída por Lehane e a concepção grandiosa e complexa dos personagens, sem falar do clímax genial e surpreendente. Realmente uma aula de como se criar um thriller que igualmente originou uma grande obra cinematográfica.
    OBS: não sei se pode, mas gostaria de deixar aqui o link de minha crítica do respectivo livro que consta em meu blog Kontaminantes. Que tal uma parceria?
    https://kontaminantes.blogspot.com.br/2017/08/paciente-67_3.html

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