Rosa de Esperança – 1942 (Resenha)

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +

É surpreendente que o filme Rosa de Esperança (Mrs. Miniver, 1942) não seja amplamente conhecido atualmente, considerando o peso de seu estrelado elenco, a assinatura de um dos maiores diretores que Hollywood já teve, William Wyler, e, é claro, os seis prêmios Oscar que recebeu, incluindo o de Melhor Filme. O filme é, sim, reconhecido como um clássico, mas talvez não tenha o reconhecimento que de fato merece.

Para entender melhor a obra, é importante uma contextualização sobre as condições em que ela foi realizada. Wyler era judeu, nascido na Alemanha. Mudou-se para os EUA ainda jovem, onde começou a perseguir a carreira no cinema. Nos anos 30, já estava consolidado como um dos grandes diretores da indústria. Com a ascensão do nazismo na Europa, Wyler foi um dos poucos que demonstrou preocupação. Um dos principais motivos, obviamente, era sua religião. Porém, Hollywood não queria entrar na luta contra o nazismo em seus filmes, pois a Alemanha era um importante mercado consumidor das obras.

Até então, quase no fim de 1941, os EUA ainda não tinham entrado na guerra. Wyler foi o primeiro que, corajosamente, abordou o conflito na Europa e o perigo que ele representava para a humanidade. Ele finalizou as filmagens de Rosa de Esperança perto da data do ataque japonês à base Pearl Harbor, fato que levou o Tio Sam a entrar na guerra. Assim que seu trabalho estava terminado, o diretor se alistou no exército estadunidense para produzir filmes e documentários de propaganda para o governo do país. Enquanto estava no front, o filme foi lançado.

A história se passa no sul da Inglaterra, e gira em torno da amável e gentil Mrs. Miniver (Greer Garson) e sua família de classe média. Logo de início, o filho mais velho da família, Vincent (Richard Ney), volta para casa, depois de seu primeiro ano de faculdade em Oxford. Antes disso, quando Mrs. Miniver estava na estação de trem depois de um passeio pela cidade, o simpático funcionário Ballard (Henry Travers) diz a ela que gostaria de batizar a rosa que cultivara recentemente com o nome da protagonista, e então inscrevê-la no concurso anual de flores da cidade. Porém, isso acabou chegando aos ouvidos de Lady Beldon (Dame May Whitty), poderosa aristocrata da região e vencedora de todos os concursos até então (porque ninguém inscrevia rosas contra as dela, por medo de seu poder).

A neta de Lady Beldon, Carol (Teresa Wright), vai à casa dos Miniver para tentar convencer o casal a falar com Ballard, para que ele desista da participação no concurso. Isso gera uma discussão com Vincent, que diz que o pedido é extremamente arrogante e elitista, argumentando que os ricos, como Beldon, não conseguem ver um pobre tentando estar no mesmo lugar que eles. Carol responde com uma pergunta: “o que você tem feito para mudar alguma coisa?”. Ela diz que acabara de fazer um período de trabalho voluntário para ajudar as pessoas carentes, e que é muito cômodo, para Vincent, apenas falar e não fazer nada. O rapaz fica sem resposta e vai embora. A briga, surpreendentemente, acaba criando um romance entre os dois.

Outro dia, durante a missa, a família recebe, pelo padre, a notícia de que o país entrou em guerra com a Alemanha. A partir daí, o filme se encarrega de mostrar as mudanças e tragédias que ocorrem com os Miniver e todos os habitantes da cidade, e como a guerra afetou profundamente a vida de cada um. Vincent se alista para combater no exército, o que torna cada visita sua em momentos preciosos para Carol e sua família. Seu pai, Clem (Walter Pidgeon), entra para um grupo de voluntários que patrulham e protegem os arredores da região. Enquanto isso, Mrs. Miniver fica em casa protegendo seus filhos mais novos.

Rosa de Esperança é um filme de guerra diferente do modelo tradicional do gênero. Enquanto a esmagadora maioria retrata o conflito e o combate armado, Wyler preferiu mostrar o cotidiano de quem não está no exército. O roteiro oculta as missões de Vincent e Clem, e opta por mostrar seus retornos, a dinâmica familiar, o romance com Carol, o concurso de flores. Tudo isso com leveza e sensibilidade excepcionais, que dão a sensação de se estar assistindo a um trabalho de Frank Capra. Rosa de Esperança tem alguns momentos de tirar o fôlego, como a sequência em que um piloto alemão foragido entra na residência da família quando apenas Mrs. Miniver e as crianças estão presentes. Ela lida com a situação de forma exemplar, e conta com um pouco de sorte para se safar.

A obra termina com um emocionante discurso do padre da cidade, logo após uma grande tragédia que abalou profundamente os personagens. O orador prega que todos os presentes se unam, para que, juntos, possam lutar por suas liberdades e, enfim, ter esperança. O filme foi um sucesso arrebatador de público e crítica, rendendo prêmios da Academia para Greer Garson, Teresa Wright e para o diretor. Wyler estava no front, e recebeu a notícia por meio de um jornalista. Sua esposa aceitou o prêmio por ele.

O cineasta retornou do conflito praticamente surdo, e mesmo assim continuou a ter sucesso no cinema. Fez filmes memoráveis, como Os Melhores Anos de Nossas Vidas e Ben-Hur, e, junto com Capra e John Ford, faz parte do seleto grupo de diretores que ganharam três Oscares de Melhor Diretor (Ford tem quatro). Rosa de Esperança é um de seus melhores trabalhos. Um filme simples e delicado, que trata de temas pesados e importantes. Um verdadeiro ato de coragem de um grande artista.

Conheça nosso canal no Youtube


8.1 Ótimo

Um filme de simplicidade admirável e poder incontestável. Rosa de Esperança é um dos melhores trabalhos do diretor William Wyler, um filme de guerra que foge dos padrões e entrega uma das personagens mais marcantes da história de Hollywood: a Mrs. Miniver de Greer Garson.

  • IMDb 7.6
  • Roteiro 8.5
  • Elenco 8.5
  • Fotografia 8
  • Trilha Sonora 8
Espalhe Cultura:

About Author

Luiz Eduardo Luz

Publicitário, amante da sétima arte e colecionador de filmes, escreve sobre cinema para o Canto Dos Clássicos. Frase preferida do cinema: “Tudo bem, Sr. DeMille, estou pronta para o meu close-up.” – Crepúsculo dos Deuses.

Deixe um comentário