T2: Trainspotting – 2017 (Resenha)

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 Danny Boyle retorna ao universo que o consagrou, mais por nostalgia que por necessidade.

Sem Limites: o peso de um passado

Obras-primas são intocáveis. Ou, pelo menos, deveriam ser. Esse é o consenso geral de quase toda a comunidade cinéfila e artística existente. A ideia de se refilmar ou reinterpretar um clássico vai, quase que abruptamente, de encontro com o conceito que caracteriza tal coisa como clássica: o fato de ela ser exclusivamente única, atemporal ou irretocável.

Dessa forma, ao imaginar uma continuação (nem tão) direta do original Trainspotting, de 96 (intitulado no Brasil como ‘’Sem Limites’’), é totalmente aceitável que o expectador fique, a primeira vista, desconfiado. Mexer com o filme que, talvez ao lado de Pulp Fiction (1994), de Tarantino, seja considerado o maior marco cult do cinema dos anos 90 pode não ser uma ideia tão inteligente. Revolucionário não só por seu enredo e contexto, mas também (e muito, diga-se de passagem) pela sua urgente e sofisticada linguagem cinematográfica, Trainspotting foi um marco para uma geração que cresceu vendo o cinema moldar novos rumos as custas da modernidade e da velocidade dos novos tempos.

A boa notícia, porém, aos cultuados fãs desse universo cinematográfico de um filme só, é que a sua continuação é tão sóbria (mesmo que conte histórias extremamente etéreas) quanto a primeira película. Não se preocupando tanto em ser sofisticado ou extravagante, mas sabendo lidar com a saudade de maneira madura e inteligente.

De volta ao lar

Se o Trainspotting original tratava de uma inovação estilística e de linguagem, o novo T2: Trainspotting se preocupa mais em como prestar homenagem ao primeiro filme do que em ser inovador. Em uma premissa que remonta um reencontro dos quatro melhores amigos do primeiro longa, T2: Trainspotting acaba sendo muito mais uma visita ao passado beat e aos velhos hábitos do que uma nova jornada transcendental da juventude moderna.

É, por sinal, com bastante otimismo que Danny Boyle e o roteirista John Hodge — indicado ao Oscar em 96 pela primeira adaptação de Irvine Welsh para os cinemas — adaptam o romance ‘’Porno’’ como continuação da história original. Alçados em uma fotografia embriagada e luminosa do mais fiel colaborador de Boyle — Anthony Dod Mantle — o retorno de Renton a Edimburgo também é uma atualização do passado que o espectador tanto esperava. Ver Sick Boy, Spud e Begbie novamente é uma grata surpresa, principalmente pelo fato de que Boyle não os trata como personagens que tenham se afastado e se modificado com o peso do passado, mas sim como os mesmos jovens rebeldes e maníacos dos anos 90, agora presos na responsabilidade de serem adultos.

Com muita naturalidade, por sinal — e talvez seja esse um dos grandes méritos do novo Trainspotting — é que os atores voltam a viver os seus personagens; sem separação temporal, apenas correndo os riscos do destino que levaram Begbie (Robert Carlyle) à cadeia, Sick Boy (Jonny Lee Miller) a tornar-se um cafetão chantagista e que fizeram com que Spud (Ewen Bremmer, desengonçado como sempre) continuasse a ser o velho viciado em heroína. Ao passo, T2: Trainspotting segue a risca os conceitos da vida real, traduzindo perfeitamente o velho hábito que diz que os amigos verdadeiros podem passar (20) anos sem ver, mas que quando se encontrarem, tudo será exatamente como sempre foi.

Um hush de nostalgia

Ainda que venha para ser atual, T2 não se arrisca, seguindo firme a linha que o consagrou. Muito mais do que uma volta ao passado, a película é uma jornada quase episódica, uma oportunidade clara para se alfinetar os tempos das redes sociais e da realidade virtual. O discurso publicitário do ‘’choose life’’ encontra, aqui, uma crítica bem atual, em um dos melhores diálogos de toda a saga de Trainspotting.

Fora isso, T2 é extremamente funcional no que tange a nostalgia: Iggy Pop, energia, montagem acelerada e recortes de cenas do original; antigos amigos e parentes, histórias a serem relembradas e lugares a serem revisitados. Tudo está lá exatamente como o quarto de Renton foi deixado: intacto. Quem conhece o antigo Trainspotting, pode até não se surpreender com o novo, mas é inegável que terminará o filme com um sorriso de canto de rosto, como quem revisita os amigos após um longo tempo. O mérito de Boyle, aqui, é perceber as sutilezas das relações humanas sem precisar de um motivo chocante para expô-las.

Primeiro, há uma oportunidade. Depois, há um traição

Ao cabo, não poderia ser sem um toque de cinismo e ausente de um clímax nostálgico que T2: Trainspotting se encerraria. 20 anos depois de uma traição, um ciclo se fecha. Uma jornada se encerra na comédia humana de Sick Boy, Begbie, Renton e Spud. A geração britânica e quase beatnik que amava a contracultura, o futebol e as drogas dos anos 90 envelheceu, mas não mudou. E, como ao final de tudo, alguém sempre tem de se dar bem, não há nada mais lógico que o fim da jornada de nossos (anti) heróis venha a ser um mártir pra alguns, e um martírio pra outros.

Nos tempos da tecnologia, do selfie, do Facebook e da informação, os personagens de Trainspotting não precisam que alguém se importe com o que eles vão almoçar, com quem saíram ou aonde estiveram. Afinal de contas, quem precisa de alguma coisa quando se é viciado em heroína?

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7.9 Muito bom

T2: Trainspotting é um retorno maduro a um estilo de vida e de cinema que marcou os anos 90. Boyle retorna ao seu passado, sem que pretenda permanecer lá.

  • IMDb 7.5
  • Roteiro 8
  • Elenco 9
  • Fotografia 8
  • Trilha Sonora 7
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About Author

Rubens Fabricio Anzolin

Estudante de letras abastecido por cinema e literatura. Amante do revisionismo e do pós-modernismo, embriagado de poesia e cinéfilo de nascença.

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