Um Caminho para Dois – 1967 (Resenha)

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Um Caminho Para Dois

Um Caminho Para Dois não tem o interesse direto em ser excessivamente realista, fugir de convenções de gênero ou escapar de certos clichês de filmes de romance. O diferencial aqui está na execução. E é nesse ponto que Stanley Donen atinge seu nobre e complicado objetivo: realizar uma ode e ao mesmo tempo uma carta de amor para a idealização do matrimônio como estilo de vida.

Afinal, os casamentos duradouros resistem pela vontade mútua de continuar juntos ou pelo constante flashback das boas memórias que impedem uma decisão mais drástica em busca da plenitude?

Que tipo de pessoas sentam em um restaurante e nem sequer tentam falar umas com as outras?

No fim, nos vemos presos a um ciclo vicioso que consiste em felicidade e infelicidade caminhando lado a lado, dividindo seus papéis a todo momento. Haverá sempre um contraponto alegre no momento da briga mais horrível. Mas também uma pulga atrás da orelha quando as coisas estiverem aparentemente calmas. Faz parte.

Audrey Hepburn e Albert Finney interpretam Joanna e Mark, um casal que está há 12 anos juntos e reavaliam a relação, decidindo se devem ou não ficarem juntos. A narrativa se desenrola através de flashbacks não-lineares resgatando algumas situações pontuais, como o início do relacionamento, a desastrosa (porém apaixonada) lua de mel e o gradual desabamento, que se conecta com o “presente” da história.

Stanley Donen está interessado, acima de tudo, em nos apresentar toda a desestabilização que envolve uma relação a dois, polarizando os pontos de vistas e nos fazendo reexaminar constantemente o que pensávamos sobre os personagens e a união entre eles. Existem momentos suficientemente doces e sutis que são atropelados por uma ofensa ou um tratamento mais ríspido, que vem a causar o afastamento. E vice-versa, especialmente em uma sequência que envolve Joanna se sentindo atraída por outro homem, debatendo consigo mesma os seus sentimentos, em um momento que escancara a genial intenção do roteiro.

Um Caminho para dois - 1967

Albert Finney e Audrey Hepburn

O Mark de Albert Finney é desenhado como a caricatura de um sujeito aparentemente desapegado e afastado de relacionamentos, que acaba caindo do cavalo com uma facilidade irrisória. Seu lado intelectual, coberto de divagações vazias e aparentemente relevantes é uma máscara para sua fragilidade e desestabilização.

E por mais que o trabalho de Finney seja brilhante, é muito difícil contracenar com Audrey Hepburn sem ser ofuscado de alguma forma. E, de fato, ela é a estrela que brilha em Um Caminho Para Dois. Doce, encantadora, divertida e apaixonada, mas também perversa e dura com a progressão dos acontecimentos, que formam uma espécie de armadura. Poucas atrizes brilharam tanto quanto ela na história do cinema.

O principal mérito, no fim das contas, é pintar uma espécie de tragédia cômica em que não há protagonismo nem antagonismo óbvio. Afinal, todos vivemos uma desordem interna com o acúmulo de situações mal resolvidas que acabam se tornando frustrações. Experimente, então, unir duas personalidades igualmente caóticas para conviver e tentar encontrar o tão sonhado “meio-termo”. No filme, vimos Joanna e Mark. Na vida, acontece na nossa casa, com nossa família, com nossos amigos. Comigo. Com todos nós. O ser humano não aprende.

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9.3 Ótimo

Clássico do "cinema romântico" principalmente por debatê-lo, ao invés de simplesmente celebrar ou lamentar uma relação.

  • Direção 9
  • Roteiro 9
  • Elenco 10
  • Fotografia 9
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About Author

Gabriel Belo

Jornalista com sérias tendências a sofrer de overdoses cinematográficas. De Kiarostami a Agnes Varda.

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