Sindicato de Ladrões – 1954 (Resenha)

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A década de 50 foi uma das mais marcantes da história do cinema. Recém-saído de um conflito de proporções gigantescas, o mundo estava pronto para se reconstruir – e cheio de histórias para contar. Durante esse período, muitos dos maiores cineastas de todos os tempos estavam em atividade, como John Ford, Akira Kurosawa, Ingmar Bergman, Federico Fellini e Alfred Hitchcock. Uma década de transição em muitos aspectos que vão além do cinema, trazendo consigo revoluções para a comunicação, a moda e a política, por exemplo.

A juventude estava à frente de tudo isso. A geração pós-guerra estava encarregada de dar novos rumos à humanidade. E essas pessoas tinham diversos ídolos e ícones. Entre eles estava Marlon Brando, um dos atores mais influentes e populares de todos os tempos. Influenciado desde pequeno por sua irmã, que era atriz, Brando decidiu perseguir a carreira artística ainda jovem, indo para Nova York. Lá, construiu uma boa reputação no teatro, virando uma estrela ao interpretar Stanley Kowalski, na peça Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire), de Tennessee Williams.

Pouco depois, Brando reeditou este papel no filme homônimo do diretor Elia Kazan. Sua atuação impressionou público e crítica devido à intensidade e ao realismo com que ele trabalhava. Dois anos depois, se tornou um ícone cultural por seu papel em O Selvagem (The Wild One, 1953). Com jaqueta de couro, calça jeans e em uma motocicleta, ele virou o modelo do jovem moderno. Já consolidado, tanto profissionalmente quanto culturalmente, o ator atinge seu auge em 1954, com sua histórica interpretação do personagem Terry Malloy, no filme Sindicato de Ladrões (On The Waterfront, 1954), dirigido, novamente, por Elia Kazan.

Terry é um ex-pugilista, que fracassou na carreira esportiva e agora trabalha em um porto, exercendo as mais diversas funções. Ele dispõe de muitas regalias, pois é irmão mais novo de Charley (Rod Steiger), braço direito do poderoso Johnny Friendly (Lee J. Cobb), líder da máfia que controla o sindicato dos trabalhadores do porto, mandando em todos com punho de ferro. Como forma de ajudar a máfia e fazer seu irmão orgulhoso, Terry ajuda os capangas de Friendly a armarem uma emboscada para Joey Doyle, jovem que delatou os esquemas de corrupção do sindicato para as autoridades. O que Terry não sabia, porém, era que o delator seria assassinado.

O lutador fracassado, lentamente, começa a questionar os métodos de operação da máfia. Isso acontece com maior intensidade quando ele acaba por se envolver em uma relação amorosa com Edie (Eva Marie Saint), irmã do falecido Joey. Sem saber que Terry esteve envolvido no assassinato, a jovem é responsável por iniciar um movimento de revolta contra o sindicato, ajudada pelo padre local, Barry (Karl Malden). Pouco a pouco, outros trabalhadores começam a se rebelar, iniciando uma onda de violência. O único que pode acabar com tudo é Terry, que conhece as ilegalidades de Friendly e a verdade por trás da morte de Doyle.

Dividido pelo amor que sente por Edie e pela lealdade a seu irmão e à máfia, ele sofre para tomar uma decisão. Enquanto isso, Friendly ordena que Charley mate seu irmão caçula. O encontro dos dois irmãos, no banco de trás de um carro, é uma das cenas mais importantes e célebres de toda a história do cinema. Ambos estão no limite, e sabem que suas vidas dependem do que fizerem nos próximos minutos. Quando Charley saca a arma, Terry o olha com diversos sentimentos: surpresa, pena, tristeza. Naquele momento, em que ele abaixa a arma com sua mão, Terry se torna o irmão mais velho, zelando e guiando o outro – e Charley percebe que não consegue fazer o que lhe foi pedido.

Em seguida, Marlon Brando interpreta uma de suas cenas mais marcantes, com um dos trechos mais emblemáticos que já foram escritos. Sua fala nessa passagem foi eleita pelo American Film Institute como a segunda mais marcante da história do cinema, atrás apenas da icônica “I’m gonna make him an offer he can’t refuse”, dita pelo próprio Brando em O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972). Após a cena, Charley enfrenta seu triste destino, levando Terry à busca pela justiça.

O legado de Kazan e Brando para o cinema é incontestável. Juntos, eles mudaram a forma como as pessoas são representadas na tela. O realismo quase naturalista das atuações do astro eram algo inimaginável até pouco tempo antes, em que ainda reinava um tipo de atuação mais teatral, mais melodiosa. Brando era seguidor do famoso método Stanislavski, que pregava que o ator deveria usar de sua própria vivência emocional para encarnar seus personagens, além de orientar a atuação para uma abordagem mais psicológica e realista. A parceria Kazan/Brando influenciou toda uma geração posterior de cineastas, exercendo um profundo impacto no meio cinematográfico (o grande Stanley Kubrick tinha Kazan como uma de suas principais referências e inspirações).

Sindicato de Ladrões foi um sucesso estrondoso, vencendo oito Oscares, incluindo os de Melhor Filme, Melhor Diretor para Kazan e Melhor Ator para Brando, além de conseguir incríveis três indicações na categoria de Melhor Ator Coadjuvante para Rod Steiger, Karl Malden e Lee J. Cobb (a categoria feminina foi vencida por Eva Marie Saint). Tanto Brando quanto Kazan seguiram suas carreiras com sucesso, principalmente até os anos 60.

Suas vidas pessoais foram marcadas por polêmicas. O astro era sempre questionado por seu comportamento impulsivo e destrutivo, e, por outro lado, sempre esteve fortemente engajado em causas sociais. O diretor, ex-membro do Partido Comunista dos Estados Unidos, foi um dos nomes da indústria cinematográfica dos EUA que denunciaram diversos colegas simpatizantes da ideologia aos representantes do macarthismo. Quando recebeu um Oscar honorário, anos depois, muitos dos presentes não o aplaudiram, em forma de protesto. O que fica, porém, para a posteridade, é a enorme contribuição artística e cultural que esses dois trouxeram à sociedade, e que é sintetizada em Sindicato de Ladrões, um dos maiores filmes da história de Hollywood.

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8.6 Muito bom

Sindicato de Ladrões é o auge da parceria do diretor Elia Kazan com o astro Marlon Brando, que modificou profundamente a natureza da atuação cinematográfica. Um filme essencial, repleto de cenas memoráveis e personagens marcantes.

  • IMDb 8.2
  • Roteiro 8.5
  • Elenco 9.5
  • Fotografia 8.5
  • Trilha Sonora 8.5
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Sobre o Autor

Luiz Eduardo Luz

Publicitário, amante da sétima arte e colecionador de filmes, escreve sobre cinema para o Canto Dos Clássicos. Frase preferida do cinema: “Tudo bem, Sr. DeMille, estou pronta para o meu close-up.” – Crepúsculo dos Deuses.