Uma Mulher Sob Influência – 1974 (Resenha)

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A Era de Ouro de Hollywood é, até hoje, um período amado e cultuado por cinéfilos de todo o mundo. Caracterizada pelo domínio de produção dos grandes estúdios, essa fase reinou soberana por cerca de 40 anos (início da década de 20 até o fim dos anos 60). Com o colapso desse sistema e o fim do Código Hays, que fiscalizava o conteúdo dos filmes, nasceu a Nova Hollywood, que abria espaço para produções mais independentes.

Porém, o nascimento do cinema independente dos Estados Unidos aconteceu um pouco antes, em 1959. O então ator John Cassavetes resolveu escrever e dirigir um filme repleto de improvisações, chamado Sombras (Shadows, 1959). A equipe de produção e o elenco eram compostos por amigos e conhecidos do cineasta. O estilo de Sombras, repleto de improvisações e tratando de temas incomuns para o cinema da época, manteve-se por toda a carreira de Cassavetes, culminando em 1974, com sua obra-prima, Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under The Influence). Escrito e dirigido por ele, o filme foi estrelado por Peter Falk e Gena Rowlands, com quem Cassavetes foi casado dos 25 anos até sua morte, aos 59 anos, em 1989.

O filme conta a história de um casal, Nick (Falk) e Mabel (Rowlands), focando nas dificuldades que a loucura dela traz para a vida dos dois e de todos ao seu redor. Nunca é dito no filme o que Mabel tem. Apenas sabe-se que ela não é “normal”. Costuma falar sozinha, tem tiques nervosos, apresenta comportamentos inaceitáveis diante de estranhos e, algumas vezes, tem colapsos nervosos que a deixam em estado de pânico. A obra é composta por cenas bastante longas, compostas exclusivamente por diálogos. Os movimentos de câmera são poucos, dando ao filme um toque de voyeurismo, como se o espectador estivesse espiando a casa e o cotidiano daquela família problemática.

Nick é um operário ranzinza que trabalha demais, o que acaba chateando Mabel, e contribui ainda mais para a deterioração de sua saúde mental. A relação os dois é o cerne do filme, e, assim como Mabel, alterna momentos de calmaria e tempestade constantemente. Apesar de tudo, ela é uma ótima mãe e esposa, e Nick faz questão de afirmar isso para seus colegas de trabalho quando é perguntado sobre o estado dela. Após um caso em que Mabel passou dos limites no tratamento dado a um visitante, Nick fica enfurecido e acaba chamando um médico para levá-la a um hospício, e é totalmente apoiado por sua mãe, a senhora Margaret (Katherine Cassavetes). Existe um embate claro entre a esposa e a mãe, e Nick sofre para administrar a situação. Mabel é internada e passa alguns meses no hospital. Porém, quando volta, parece que nada mudou. Isso acaba gerando uma longa e forte cena final envolvendo o casal e seus filhos, mas que culmina com uma mensagem positiva.

Uma Mulher Sob Influência difere drasticamente dos filmes que representam a loucura, justamente por representá-la de uma forma boa. A loucura de Mabel é o que define a sua personalidade, e é no fim que Nick, finalmente, percebe que foi pela Mabel louca que ele se apaixonou. Os filhos deles também só conseguem reconhecer a mãe em seu estado fora do padrão, e a amam exatamente por quem ela é.

Isso é recíproco, também: Nick é um sujeito baixo, mal-encarado e meio corcunda, e possui um olho de vidro (o ator Peter Falk teve que remover um olho aos três anos de idade). Uma mulher linda como Mabel, normalmente, não iria se envolver com ele. Porém, é aí que está a mensagem do filme. O amor não pode ser explicado, e a loucura de uma pessoa pode ser justamente o que outra precisa.

O elemento mais importante para o sucesso do filme é a atuação histórica de Gena Rowlands. Frequentemente citada entre as maiores da história do cinema, a performance da atriz é estudada e reverenciada até hoje. Seu companheiro de cena, Peter Falk, disse uma vez em entrevista, sobre a cena que antecede a ida de Mabel ao hospício: “Aqueles foram os dez minutos de filme mais impressionantes, imprevisíveis e emocionantes que eu já vi na minha vida”. Gena se sentia completamente à vontade trabalhando com seu marido, e acabou entregando o retrato definitivo da loucura no cinema.

O estilo espontâneo e improvisado de atuação que o diretor concedia aos seus atores, que não fizeram ensaios para o filme, foi decisivo para a atmosfera extremamente verossímil e realista da obra. Esse modo de trabalhar do cineasta influenciou grandes gerações da sétima arte, como a nouvelle vague francesa e a Nova Hollywood. Até hoje, John Cassavetes é considerado o pai do cinema independente dos EUA.

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8.1 Ótimo

Uma Mulher Sob Influência é a obra-prima de John Cassavetes, um dos maiores mestres do cinema independente, e conta com a atuação antológica de Gena Rowlands.

  • IMDb 8.2
  • Roteiro 8
  • Elenco 9
  • Fotografia 8
  • Trilha Sonora 7.5
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Sobre o Autor

Luiz Eduardo Luz

Publicitário, amante da sétima arte e colecionador de filmes, escreve sobre cinema para o Canto Dos Clássicos. Frase preferida do cinema: “Tudo bem, Sr. DeMille, estou pronta para o meu close-up.” – Crepúsculo dos Deuses.