Acossado – 1960 (Resenha)

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Dentro da nouvelle vague, movimento cinematográfico rebelde que buscava a renovação do cinema francês na virada da década de 50 para a de 60, existem alguns nomes essenciais, como François Truffaut e Alan Resnais. Porém, nenhum nome desse grupo de jovens realizadores é mais conhecido do que o de Jean-Luc Godard. Ele talvez seja, ainda, o nome mais fácil de reconhecer do cinema da França.

Godard, assim como muitos outros diretores da nouvelle vague, era crítico de cinema (da revista Cahiers du Cinéma), e, insatisfeito com a fase ruim e o comodismo que via na sétima arte em seu país, resolveu fazer seus próprios filmes. Com um roteiro escrito por ele e com ajuda de Truffaut, Godard realizou seu primeiro filme em 1960, chamado Acossado (À Bout de Souffle).

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O jovem crítico era admirador de filmes de gângster de Hollywood, como Scarface – A Vergonha de Uma Nação, de Howard Hawks, e também nutria afeição pelas chamadas produções B, ou seja, filmes de baixo orçamento, com produção mais modesta. Para fazer Acossado, Godard reuniu essa gama de influências e uniu ao tema primordial do movimento do qual fazia parte: o amor. A história do filme gira em torno de Michel Poiccard, interpretado por Jean-Paul Belmondo, um ladrão de carros inconsequente e tagarela, que, após um roubo, acaba por assassinar um policial no meio da estrada. Ele foge e vai procurar Patricia Franchini, uma estudante de jornalismo estadunidense com quem teve algumas noites de sexo, vivida por Jean Seberg. O plano de Michel é fugir com ela para a Itália, levando consigo o dinheiro que um amigo o deve.

Durante o decorrer do filme, vemos a busca do protagonista pelo seu dinheiro, as atividades dos policiais em seu encalço, mas, principalmente, vemos o desenvolvimento e o amadurecimento da relação entre Michel e Patricia. No primeiro encontro dos dois no filme, ocorre uma conversa normal, entre amigos. Mais adiante na narrativa, em um quarto de hotel, eles entram em assuntos muito mais complexos, como amor, morte, arte – e ela revela algo importante sobe os dois. Michel tem certeza que está apaixonado, mas ela tem suas dúvidas, e precisa, desesperadamente, de respostas.

A história aparentemente simples pode levar alguém a se perguntar: por que Acossado é comumente listado como um dos maiores filmes da história, muitas vezes colocado lado a lado com Cidadão Kane como os filmes mais revolucionários do cinema? A resposta é simples. É uma questão de forma e estilo.

As pessoas estavam acostumadas com um jeito clássico de se fazer filmes. Filma-se uma cena com cuidado, planejamento e rigor, e então a junta com as outras e pronto, nasce um filme. Godard acabou com essa rigidez de produção em Acossado. O filme foi inteiramente filmado com uma câmera de mão, a qual fluía, livremente, seguindo o casal de atores por Paris. O diretor tornava-se um mero espectador, a passear pela cidade assistindo ao desenrolar da história, ao passo que uma conexão maior entre público e personagens foi criada.

O grande número de close-ups, planos-sequência (incomuns, na época) e a liberdade com a qual a câmera circulava contribuíam para isso. Além disso, a obra revela-se como um cartão postal da cidade de Paris. Filmado inteiramente em locação, o filme de Godard percorre diversos pontos importantes da capital francesa, retratando, como pouco se tinha visto até então, a vida francesa moderna e o modo como as pessoas se vestiam e se comportavam. É icônica a cena em que Michel e Patricia estão caminhando pela famosa Champs-Élysées, filmada de forma belíssima, enquanto ela propagandeia o jornal para o qual trabalha.

Porém, o principal atributo que torna Acossado uma peça extremamente subversiva é a montagem. Originalmente com 2h50 de duração, Godard chegou ao corte final com 1h30. Para isso, fez o que ninguém tinha feito até então: fez cortes no meio das cenas, entre os diálogos, entre movimentos de atores, entre assuntos, entre decisões de Patricia. Um diretor normal cortaria cenas inteiras, mas ele era diferente. Os jump cuts, que aceleravam o andamento das cenas, também serviam como instrumento narrativo. Representavam a constante pressa com que os personagens estavam, a velocidade da vida moderna, o pouco tempo que temos para tomar decisões com mais reflexão.

A cartada do diretor foi ousada, inédita e principalmente, acertada. A revolução que Godard promoveu, portanto, foi em forma e estilo. O modelo tradicional estava lá: num filme de gângster, com traços noir, deve-se existir um personagem masculino misterioso e provocante, uma femme fatale, uma história policial e diálogos fortes. Tudo isso está no filme, mas apresentados de uma maneira diferente.

Repleto de referências, como pintura, literatura, música e o próprio cinema (uma cena mostra a reverência do diretor à Humphrey Bogart), Acossado é um filme que inova na montagem, na fotografia, na direção e no modo de produção, além de trazer um par de atuações memoráveis de seus atores. Se Jean Seberg já era famosa por suas parcerias com Otto Preminger, Belmondo foi de ator desconhecido a um dos maiores astros do cinema europeu. O filme elevou Jean-Luc Godard ao patamar dos diretores imortais. Mesmo tendo virado cineasta, ele nunca deixou a profissão de crítico. Disse uma vez, inclusive, que seus filmes eram nada além de críticas, também. Só que ao invés de escritas, eram filmadas.

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8.3 Muito bom

O filme de estreia do lendário Jean-Luc Godard foi uma das peças fundamentais no movimento da nouvelle vague e se tornou um dos filmes mais importantes e revolucionários do cinema. As cenas de Belmondo e Seberg caminhando por Paris são inesquecíveis.

  • IMDb 7.9
  • Roteiro 8
  • Elenco 8.5
  • Fotografia 8.5
  • Trilha Sonora 8.5
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About Author

Luiz Eduardo Luz

Publicitário, amante da sétima arte e colecionador de filmes, escreve sobre cinema para o Canto Dos Clássicos. Frase preferida do cinema: “Tudo bem, Sr. DeMille, estou pronta para o meu close-up.” – Crepúsculo dos Deuses.

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