Eles Vivem – 1988 (Resenha)

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Após um primeiro trauma com o grande sistema de Hollywood, devido ao fracasso de público e crítica de O Enigma de Outro Mundo, além de outra grande decepção com o fracasso semelhante de Os Aventureiros do Bairro Proibido, John Carpenter resolveu voltar seus projetos para a esfera independente como já fazia desde seu estouro com Halloween – A Noite do Terror. Depois de lançar o apavorante (e subestimado) Príncipe das Sombras, Carpenter realizou mais um projeto com a “Alive Films”.  O resultado foi um de seus filmes mais cultuados desde então: Eles Vivem.

Baseado em um conto de Ray Nelson chamado “Eight O’Clock in the Morning”, John Carpenter assinou o roteiro do filme sob o pseudônimo de Frank Armitage. Como já é tradicional de seu cinema, Carpenter criou uma das histórias mais GENIAIS do cinema fantástico. Metaforizando a “Era Reagan” e o crescente capitalismo desenfreado gerado pela cultura yuppie, Carpenter nos apresenta a um mundo onde os alienígenas já estão vivendo insidiosamente entre os seres humanos. E não apenas vivendo, mas também ocupando os cargos mais importantes do nosso planeta e escravizando os humanos através de mensagens subliminares espalhadas pela mídia. E o espectador descobre essa chocante conspiração quando o protagonista descobre alguns óculos escuros que, quando utilizados, expõem as mensagens subliminares e a verdadeira face dos alienígenas entre a gente.

A primeira grande sacada da ora de Carpenter é o conceito do herói presente. Sem nunca descobrirmos o verdadeiro nome do personagem (apenas creditado sugestivamente como “John Nada”, remetendo ao significado das línguas oriundas do latim mesmo), aquela figura interpretada por Roddy Piper é um homem comum, um trabalhador comum, como qualquer um de nós. Afetado pelos problemas sociais vigentes, que Carpenter ilustra adequadamente pela ambientação desoladora de um acampamento de pessoas em situação de rua, o protagonista enfrenta desemprego, fome e falta de moradia como uma pessoa à margem da sociedade. Carpenter, inteligente como sempre, cria planos poéticos que simbolizam a marginalização daquela figura (como ao colocar o personagem em um canto do plano, andando na beirada de uma rodovia) e até o modo como ele, inevitavelmente, será uma vítima daquela sociedade voraz (em um enquadramento que coloca os gigantes prédios comerciais da metrópole oprimindo o personagem, que “afunda” naquele ambiente). E apenas uma pessoa que sofra as consequências do “capitalismo selvagem” poderia ter a clareza de mente ideal para “enxergar” a real situação.

O herói havia sido escrito, originalmente, para Kurt Russel. Porém Carpenter preferiu não correr o risco de se tornar repetitivo (afinal já havia trabalhado quatro vezes com o ator) e decidiu dar a oportunidade para outra pessoa. A ideia era que John Nada transparece um ar “calejado”, de pessoa trabalhadora que sofreu muito, e Roddy Piper caiu como uma luva. Oriundo de programas de luta livre, o ator tem a fisicalidade “bruta” necessária para o papel, além de um carisma natural que poderia tê-lo tornado o The Rock dos anos 80. Já o papel do amigo Frank foi escrito especialmente para Keith David (que havia trabalhado com Carpenter em O Enigma de Outro Mundo). David também tem presença e carisma suficientes para ser um sidekick que se mantém por si só. Sendo que, quando os dois atores estão juntos em cena, a química é tão agradável e natural quanto de duplas como Riggs e Murtaugh, de Máquina Mortífera.

Falando nos dois atores, não há como citar a cena de luta “mano a mano” que marcou a história do cinema fantástico. Inicialmente planejada para ser apenas 20 segundos, a cena foi coreografada especialmente pelos atores (durante três semanas) e durou cerca de cinco minutos. Seca, extenuante e brutal, a cena agradou tanto ao diretor, que o mesmo fez questão de mantê-la em sua versão integral no corte final. Muito referenciada no meio cinéfilo, a cena em questão teve até uma versão satírica no hilário South Park.

Além de aproveitar muito bem as imagens mais pobres e desoladas de uma metrópole (algo também feito no anterior Príncipe das Sombras), Carpenter também não deixa de utilizar as imagens urbanas para passar sua mensagem. Já quanto ao universo alienígena do filme, Carpenter faz uma bela homenagem às sci-fi dos anos 50. Não somente por aproveitar uma fotografia em preto e branco no momento em que a verdadeira sociedade transparece, mas também por explorar efeitos especiais práticos e de stop-motion (a sonda alienígena é sensacional) como forma de remeter aos designs futurísticos de décadas passadas, principalmente o trabalho de Ray Harryhausen em A Invasão dos Discos Voadores. Já as criaturas são por si só bisonhas, tanto pela criativa maquiagem que os retrata como cadáveres pútridos e desumanos na inexpressividade, com imensos (e ASSUSTADORES) olhos metálicos; como também por funcionarem como um símbolo da personalidade dos profissionais que se aproveitam do sistema capitalista para lucrar com a queda de outras pessoas.

Inventivas também foram as diversas maneiras com que Carpenter ilustrou as mensagens subliminares. Não só pelos textos impessoais, objetivos e diretos (“Obedeça”, “Consuma”), mas também onde as mensagens são introduzidas. Em uma propaganda de viagens, com uma foto de uma moça de biquíni na praia, a mensagem diz “Case e reproduza”; já em uma placa de loja de franquia, a mensagem transmitida é “Sem livre pensamento”. Mas a mensagem mais irônica que Carpenter cria são as vistas em cédulas de dinheiro: “Esse e o seu Deus”.

Além de criar um conceito absurdamente interessante, Carpenter também expande suas ideias sempre com muita criatividade. Além de a transmissão central de “imagem ilusória” na mente dos seres humanos ser em uma emissora de TV (afinal, quem não tem TV em casa?), o diretor demonstra que tem uma visão geral sobre a evolução do seu universo (como ao trocar os óculos por lentes de contato). Já a crítica ao capitalismo desenfreado ganha contornos ainda mais interessantes, quando se desenvolve a questão de humanos se aliando aos alienígenas para controlarem outros humanos.

O diretor também não deixa de passar a oportunidade de dar um “tapa de pelica” nos críticos e hipócritas que reclamavam da violência em seus filmes (citando também seu colega George A. Romero), além de fazer uma brincadeira sarcástica com a indústria da propaganda, assim como Paul Verhoeven fez em Robocop- O Policial do Futuro. E além de frases de efeito que marcaram o cinema “Eu vim aqui para mascar chicletes e chutar bundas. E eu já acabei com todos os meus chicletes”), o filme ainda traz citações mais reflexivas e ácidas (“Todos nós nos vendemos todos os dias. É melhor estar do lado dos vencedores!”).

Eles Vivem ainda conta com várias sequências de ação de tiroteios, explosões e brigadas urbanas que Carpenter não fazia desde Assalto à 13ª DP (com exceção das fantasias de Fuga de Nova York e Os Aventureiros do Bairro Proibido).

Curiosamente, alguns grupos neonazistas e antissemitas criaram uma teoria de que Eles Vivem, na verdade, fosse uma alegoria sobre o modo como os judeus estavam dominando o mundo (!). Muito descontente com essa mentira cheia de discurso de ódio, o próprio diretor John Carpenter veio a público e desmentiu todas essas argumentações.

O filme estreou em 1º lugar nas bilheterias dos EUA quando lançado. Para um orçamento de $4 milhões o filme arrecadou $13 milhões, o que não pode ser considerado um fracasso. O longa ainda foi indicado a Melhor Filme de Ficção Científica e Melhor Trilha Sonora no Saturn Awards, além de Melhor Filme no Fantasporto.

Com uma trilha sonora atmosférica habitual de John Carpenter e Allan Howarth, Eles Vivem é uma ficção científica B como só Carpenter poderia fazer. Uma das obras mais subestimadas dos anos 80 e, novamente, uma das ideias mais GENIAIS do cinema fantástico.

Leia também:

– Revisitando a filmografia de John Carpenter

8.0 Muito bom

Transcendendo as sci-fi conspiratórias clássicas dos anos 50 para uma alegoria sobre a situação econômica e social dos EUA nos anos 80, John Carpenter cria uma das ideias mais geniais do cinema fantástico em um longa que tira todo o proveito de seu caráter B. Um dos maiores cults do diretor.

  • IMDb 7.73
  • Roteiro 9
  • Elenco 8
  • Fotografia 8
  • Trilha Sonora 7.5
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About Author

Guilherme Dias Araujo

Mineiro, nerd e amante de cinema desde a infância. Apesar de ter maior predileção pelo gênero fantástico, principalmente o terror, é fascinado por qualquer tipo de obra da sétima arte, de Plano 9 do Espaço Sideral até 2001 - Uma Odisseia no Espaço . Hitchcock/Truffaut é seu livro de cabeceira.

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