Matar ou Morrer – 1952 (Resenha)

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Uma cena de um homem parado em uma vasta paisagem. Em seguida, ele avista seus companheiros e, em seus cavalos, todos partem. Chegam a uma pequena cidade no velho oeste dos EUA, onde está ocorrendo uma cerimônia de casamento dentro da delegacia. O noivo é o xerife da cidade, Will Kane, interpretado pelo lendário Gary Cooper. A noiva, por sua vez, é Amy Kane, vivida pela inesquecível Grace Kelly. Logo após a cerimônia, o xerife é avisado de que três pistoleiros estão esperando na estação pelo trem do meio-dia, que traz o recém-libertado Frank Miller (Ian MacDonald), perigoso bandido que Kane prendera anos antes. Imediatamente, os noivos saem da cidade para fugirem de Miller e seus capangas, e aproveitarem sua lua-de-mel. Porém, no meio do caminho, Will Kane dá meia-volta e retorna à cidade: ele não pode fugir.

É assim que é estruturado o início do filme Matar Ou Morrer (High Noon, 1952), dirigido pelo grande cineasta Fred Zinnemann. Visto que o western sempre foi considerado como uma das poucas formas de arte legitimamente criadas nos EUA, ele sempre foi caracterizado por reforçar os ideais e tradições da cultura do país. Cowboys honrados e valentes, civis prontos para defender sua terra e mulheres doces e delicadas, sempre protegidas por seus companheiros eram alguns dos estereótipos trabalhados nos filmes. Um dos grandes clássicos desse período inicial do faroeste é No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939), do mestre John Ford.

Essas caracterizações eram padrão dentro do gênero, e perduraram por muito tempo. Até que, em 1952, veio Matar Ou Morrer. Amplamente considerado como o primeiro western “adulto” ou revisionista, o filme quebrou uma série de paradigmas dentro do gênero, gerando aclamação e revolta ao mesmo tempo. A partir do momento em que Kane retorna à cidade, ele busca voluntários para ajudarem na luta contra os pistoleiros – mas não encontra nenhum. Pouco a pouco, o xerife se vê abandonado à própria sorte por seus amigos e conterrâneos. Mais do que isso, por sua própria esposa. Amy diz que, caso ele não fuja com ela, irá terminar o casamento. A única pessoa que apoia o protagonista é uma ex-namorada, a mexicana Helen Ramírez (Katy Jurado), uma das personagens mais interessantes da obra, por compartilhar um passado pouco explicado com Kane e Miller.

Não só a atitude apática e fria de todos que fugia do padrão dos westerns da época, mas a própria personalidade de Kane também. Ele não é o cowboy clássico e idealizado. Por melhor que seja no manejo de um revólver e no exercício de sua profissão, ele continua sendo um humano como qualquer outro. Forçado a enfrentar seus algozes sozinho, ele sente medo. Cogita fugir, algumas vezes. Mas seu senso de justiça e seu orgulho são maiores do que isso, e ele sabe que deve enfrentar seu destino.

Além de ser revolucionário em sua maneira de tratar a mitologia do faroeste americano, o filme de Zinnemann também provocou impacto por sua execução. Desde o momento em que sabe da iminente chegada de Miller, o espectador é colocado junto dos personagens do filme na angústia do tempo que falta para o meio-dia. A maioria do filme se desenrola, a partir daí, em tempo real. Por meio de takes de relógios, constantemente somos lembrados de que, em breve, o trem chegará. A construção da tensão no filme é brilhante, não somente pelo sofisticado uso do tempo que o roteiro faz, mas também pela música do compositor Dimitri Tiomkin (A Felicidade Não Se Compra), que atinge seu ápice na sufocante cena imediatamente anterior à chegada do trem.

O roteiro monumental é de autoria de Carl Foreman, e é por parte dele que surgem as polêmicas envolvendo a obra. Foreman fazia parte da lista negra de Hollywood, na qual figuravam os nomes acusados de supostas atividades comunistas durante o auge do macarthismo, política de perseguição aos apoiadores da doutrina no país na década de 50. Interpretações de que o personagem de Gary Cooper fazia uma alusão aos comunistas dentro da indústria, por ser ignorado e encorajado a “fugir” por aqueles que o rodeiam, fizeram defensores da política do governo criticar duramente o filme.

Grandes nomes do cinema, especialmente do gênero faroeste, como o astro John Wayne e o diretor Howard Hawks, fizeram campanha contra o filme, julgando-o uma profunda deturpação dos ideais e valores defendidos pelos westerns. É irônico que, na cerimônia do Oscar daquele ano, foi justamente Wayne quem teve de apresentar o prêmio de Melhor Ator de Cooper. O filme ainda venceu nas categorias de edição, trilha sonora e canção original (pela belíssima Do Not Forsake, Oh My Darlin).

O American Film Institute elegeu Matar Ou Morrer o 27º melhor filme da história de Hollywood, sendo o 2º melhor western, atrás apenas de Rastros de Ódio (The Searchers, 1956). Polêmico, iconoclasta e exímio em sua execução, High Noon é um dos maiores nomes de um gênero cultuado por todo o mundo, e seu impacto e influência são sentidos até hoje, mesmo passados mais de sessenta anos.

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8.4 Muito bom

Pioneiro na abordagem revisionista da mitologia do gênero faroeste, Matar Ou Morrer é um dos maiores filmes do gênero. O roteiro impecável de Carl Foreman e a atuação de Gary Cooper são alguns dos muitos pontos altos desta obra tensa e inesquecível.

  • IMDb 8
  • Roteiro 9
  • Elenco 8.5
  • Fotografia 8
  • Trilha Sonora 8.5
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About Author

Luiz Eduardo Luz

Publicitário, amante da sétima arte e colecionador de filmes, escreve sobre cinema para o Canto Dos Clássicos. Frase preferida do cinema: “Tudo bem, Sr. DeMille, estou pronta para o meu close-up.” – Crepúsculo dos Deuses.

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